Você já desistiu de ler um livro?

Problemas de quem se acha inteligente.

É sempre a mesma coisa, não resisto a comprar um livrinho de vez em quando, é como um vício ou a tentativa frustrada de ser um pseudo-intelectual. Tenho mania de ser seduzido por um autor ilustre ou um título que todo mundo lê (ou pelo menos dizem que leram). Na verdade, quem nunca comprou um livro leu meia dúzia de páginas e jogou num canto qualquer da casa?

Eu tinha acabado de ler meu primeiro livro do Freud, estava me sentindo mais arejado e um pouco mais entendedor de psicologia, era o máximo saber um pouquinho do que o pai da psicanálise havia dito e precisava logo ler outro clássico para não perder aquele pique de leitura.

Parei em frente da livraria e olhei muitos títulos ainda não lidos, tinha Machado de Assis, Drummond, Lispector, Rubem Braga e até um pequeno livro de piadas rápidas, mas meus olhos brilharam no Sartre escondido ali atrás da prateleira. Não tive dúvidas quando olhei aquela capa cinza com a foto do filósofo fumando, o que pode existir de mais intelectual?

Peguei o livro e saí daquela livraria me sentindo um pouco mais inteligente. Entrei no ônibus com o livro em mãos e as pessoas olhavam aquela suntuosa capa e liam o nome do autor em letras garrafais, apreciavam minha barba e deduzo que deduziam: “eis um intelectual”. Mal sabiam eles que eu não estava entendendo nada do que lia, verdade seja dita, não entendia patavinas de nada. Tinha muita técnica, muitos aforismos, muita filosofia, mas me recusei a fechar o livro e pegar o celular na mão e preferi ficar ali com um ar de membro da Academia Brasileira de Letras.

Tudo bem, qualquer um já comprou um livro difícil de ler ou que levou um pouco mais de tempo para compreender o pensamento do autor. Também não existe nada de anormal em abandonar uma leitura se o conteúdo não era bem aquele o esperado. Mas desta vez passou dos limites. Era impossível ler, a cada linha era um mundo de palavras desconhecidas, uma enormidade de teorias e uma tempestade de letras que não faziam sentido algum.

Desci do ônibus e na primeira lixeira que esbarrei não tive dúvidas; adeus Sartre! Óbvio que a culpa não é dele, mas da próxima vez eu compro o livro de piadas que com certeza poderá ser mais útil no churrasco do final de semana.

Aliás a intelectualidade exacerbada só serve para os círculos sociais dos engomados, porque na verdade o que te torna um cara legal é saber falar sobre novela, futebol e da vida dos outros.

Paulo Sales ©


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