Riqueza não se compra

Mais uma vez trafegando pelo trecho que liga Brasília a Goiânia - e vice-versa - encontrei um senhor pedindo carona na beira da estrada.

Ele usava uma calça azul que tampava oitenta porcento da sua perna, uma sandália de couro, estilo 'caba da peste', uma camiseta listrada surrada com três botões abertos e um chapéu de boiadeiro.

Passei direto.

E por mais que tivesse seguido o instinto natural de não dar importância às pessoas que pedem carona, esse senhor me incomodou. E não porque ele apontava para baixo, ao contrário do tradicional sinal com o polegar esticando apontando o caminho o qual pretende seguir.

Ele me fez lembrar minha infância em Palmelo - uma cidade minúscula no interior de Goiás. Tão pequena que a vizinha Pires do Rio era considerada grande. E sempre que íamos a Pires, minha avó também ficava na beira da estrada comigo pedindo carona para qualquer pessoa que passasse por ali.

E foi assim várias vezes.

No impulso e na adrenalina de fazer algo diferente, fiz o primeiro retorno que encontrei e fui buscar esse senhor que continuava ali parado na beira da estrada.


Ô, meu filho. Que Deus lhe ajude. Vai até Anápolis?

Ele entrou no carro e perguntei o nome dele. Laílson.

E vou antecipar, seu Laílson tem uma história foda.

Cresceu próximo a Pirenópolis ajudando o pai que era caseiro de uma fazenda da região. Juntou seu dinheirinho e ao invés de ir "galantear as moças da praça", como ele diz, guardou para comprar sua primeira vaca.

Foi fazendo dinheiro, fazendo dinheiro e com mais ou menos 30 anos comprou uma chácara, que oito anos mais tarde virou uma fazenda. Lá, criou dois meninos ao lado de sua esposa - já falecida (fisicamente, porque ele ainda fala dela como se estivesse completamente apaixonado).

O mais novo se envolveu com droga e fez dívida com um agiota. Seu Laílson teve de abrir mão de metade do seu patrimônio para resgatar o filho. Pouco tempo depois foi vítima do tráfico em Goiânia.

"Eu errei foi nisso. Dei tudo o que não tive a ele, mas não soube orientar. Com 17 anos foi pego pela polícia carregando droga. Com 23, nossa família recebeu ameaça de agiota. Sem nem pensar vendi quarenta porcento dos meus alqueires e mais um punhado de boi. Com 28 anos nos deixou. Foi triste demais. Queria poder contar essa história para todos os jovens", confessou com a voz serena de quem já deveria ter falado deste assunto diversas vezes.

Posteriormente vendeu tudo o que tinha. "Tudo o que você tem, você não tem. Tudo o que a vida dá, ela pode tirar sem nem pedir permissão. Ainda bem que uma coisa que nunca perdi foi a humildade. Sempre cumprimentei todo mundo. Desde os coronéis que beiravam a região, até meus caseiros. E isso me ajuda muito hoje".

Atualmente, o filho mais velho é concursado em Cuiabá e seu Laílson vive em uma chácara pequena, "só eu e as galinhas. Nem com gado eu mexo mais". E vai a Anápolis todo dia dez receber um dinheiro de um pé de meia que fez.

"Eu até poderia ir dirigindo, mas sempre tem um moço igual você que encosta o carro para me levar, então porque vou me esforçar", falou sorrindo, exibindo os nove dentes que ainda tem na boca.

E aí, qual é a moral da história?

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