Quem dá nome aos bois

(Imagem: Sally Mann)

Dos dias do passado, em que a casa de meus avós era de cimento batido e as telhas eram somente presas em tábuas de madeira, nesse descobri o significado de cativar e criar afeto.

Ao chegarmos de viagem minha avó fazia doces, tirava leite da vaca, fazia bolos e baião de dois. Uma feira de vegetais era colocada em cima da mesa e meu avô trazia algum bicho pra casa. O quintal tinha uma enorme caixa d’água no meio, um galinheiro improvisado e uma horta plantada por vovô. Um pato branquinho e um carneirinho foram colocados lá. Meus olhos brilhavam. Já ia sair correndo desembestada para brincar com eles quando meu pai me chamou num canto.

-Não ponha nome neles, nem fique alisando muito, é melhor você ir brincar lá fora com seus primos, vai acabar se sujando nesse quintal.

-Vou me sujar lá fora também, eu quero brincar um pouquinho só.

E revirou os olhos, o fato é que meu pai iria revirar ainda mais com o passar dos anos. Era inevitável, eu já estava começando a mostrar meus primeiros sinais de rebeldia. O “um pouquinho só” durou uma tarde inteira. Ao fim dela tanto o pato quanto o carneiro estavam batizados e minha intenção era conseguir uma corda longa o suficiente para passear com os dois no dia seguinte.

O despertador era o galo do vizinho, quando ele cantava eu já estava de pé. Tomava um banho rápido, colocava qualquer roupa e corria pra cozinha. Tomava o café planejando o que ia fazer do dia. Estranhei o silêncio no quintal, levantei e corri pra lá. Encontrei meu avô tirando o que talvez fosse o intestino do carneirinho, o sangue escorria manchando o chão e fazendo uma enorme poça. Nunca tinha visto um bicho morto de perto, o mais próximo disso foram os que vi na estrada, rapidamente. Não contive o grito, nem as lágrimas. Quando você é criança a intensidade das coisas é enorme, a ingenuidade potencializa várias situações que para os adultos não impressionam mais.

Meu pai me olhava com cara de pena, mesmo tendo avisado que não colocasse nomes, que não brincasse com os animais. Eu tinha entendido o motivo tarde, entre lágrimas e uma incompreensão que me consumia.

Minha mãe disse que me deixassem chorar, que era pra me acostumar, pra aprender como é a vida. Deitada na cama de minha avó senti toda a dor e frustração do universo de meus dez anos de idade. Chorei tudo que tive pra chorar, senti toda raiva e fiz toda birra e malcriação.

As coisas começam quando se nomeiam. Quando se dá nomes aos bois, aí tudo complica. Minha prima chegou no quarto e me puxou pra fora.

-Tia disse que ia ter um churrasco pro almoço e amanhã ia ter pato!

Descobri também que os patos não voavam alto o suficiente para fugirem sobre o muro. No dia seguinte não teve pato pro almoço, mas eu paguei o pato com uma bela surra dada por minha mãe por ter deixado aberta a portinha do quintal.

“Ao menos salvei Toquinho!”, eu pensava.


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