Quem brinca com fogo

(Imagem: SALLY MANN, Venus After School, 1992)

Eu era a criança que em época de São João não podia nem sonhar em sair na rua, em assar milho na fogueira. Minha asma me impedia de dar cinco passos sem parar e me encurvar pra recuperar o fôlego. As mais novas corriam com um fogo danado porta a fora aos gritos, jogando traque de massa, acendendo chuveirinhos. Eu via tudo da janela fechada da sala, a porta de vidro era vedada também. Era obrigada a usar aquelas máscaras respiratórias, sufocava com o cheiro da fumaça e com as lágrimas.

Quando a situação piorava me fechavam no quarto e eu fazia nebulização. Me davam um livro pra ver se distraía a vontade de sair, mas só conseguia pensar na minha turma se divertindo, acendendo bombinhas e correndo pelas calçadas. Minha mãe era radical, não adiantava choro, manha, grito, drama. “Não vai sair e pronto!”. Me concedia o privilégio de bisbilhotar pela janela, o que eu fazia escondida atrás das cortinas pra ninguém ver os olhos inchados do choro, nem a terrível máscara. Acabava sendo vencida pelo cansaço de ficar em pé. Pegava um livro e devorava deitada na cama, encostada num travesseiro alto, janelas, portas e cara fechadas.

Com o passar dos anos as crises foram diminuindo a intensidade. O médico dizia que isso iria acontecer, mas que não abusasse. Depois das visíveis melhoras, em época junina tinha autorização de sair -com máscara- e passar alguns minutinhos com meus amigos, sem correr. Meu vizinho era o mais velho da rua, havia comprado um arsenal de bombinhas e fogos coloridos. As crianças se amontoavam na calçada pra ver ele estourar todos eles no meio da rua. A bombinha giratória saiu voando sem direção certa, todos correram assustados e eu não podia ir longe. O negócio me acertou na perna. A dor foi tão grande que caí no chão. Minha mãe escutou o grito e viu a seguinte cena: eu estendida no chão de areia da rua, sem máscara e perto de uma fogueira, sufocando.

Correram comigo pra dentro de casa nas pressas. Me botaram debaixo do chuveiro, ainda de toalha me deitaram na cama e me colocaram a máscara do nebulizador. Minha respiração fazia um barulho fino, como balão perto de se esvaziar por completo. No lugar onde a bombinha bateu a pele estava péssima, meteram gaze com algo por cima enquanto eu gritava sendo abafada pelo barulho da máquina. Minha mãe, que não perdia uma oportunidade para dar uma lição de moral, foi logo falando:

-Quem brinca com fogo acaba se queimando. E aí? Vai querer qual livro pra ler dessa vez?

Eu, me ardendo pra dar uma resposta, me atrevi:

-Fogo no céu!


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