Porto Alegre

Uma fábula

"É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que é amor"

De todos os meus romances, o com esta guria é o maior.

Talvez de todas as minhas loucuras de amor, Porto Alegre inteira não seja bastante para explicar o meu amor por ti. Talvez caia aos ombros das Serras, contar-te dos chocolates que te comprei; talvez caiba aos Pampas, chorar alto nossos devaneios e desencontros.


Image by GillesVranckx

Deixo a pele branca, que não era a tua. Admito a traição.

Deixo-a aqui, para chorar o rio que, hoje, leva-me ao teu encontro.

Ao todo, sou teu. E nesta, basta — fomos desacreditados, desamados, desleixados.

Adultério quase nunca tange o corpo, e ao que foi da pele — peço perdão; ao que foi da alma — compreensão.


Eu, gaúcha, sempre fui teu.

Sempre nos teus braços, nos teus beijos amargos, no teu sangue quente e anil.

Ah, São Pedro, se desse para te contar o que fiz por ela.

Coubesse em meu coração pequeno, envolto por tua manta guerreira, a certeza de uma mãe — que hoje cala meu pranto e me alimenta de suas carnes, caso for para não me ver estorvar.

Bem, atrevi-me nessa relação de pai e filha. Gaúcha, Porto Alegre ainda dava os primeiros passos; alçada pelas mãos firmes de um pai honrado.

Fui então apaixonando-me. Fui deixando a guria dos cabelos apapricados e dos braços de mar, adentrar-me a alma. Lutei e lutei, mas Porto Alegre, sou teu. Hoje, sou teu. Por essa noite, somos família; e pela eternidade, somos um só. Hoje, Rio Grande, permita-me a mão dessa filha linda; desse ser pródigo — pois casei a prenda em meus olhos e meus poemas, não adianta sugar-lhe de mim.

Hoje, Porto Alegre, peço-te a mão; nesse amor tão lindo e relutante, cabe-nos os brindes da eternidade.