Para (não) viver um grande amor

Vinicius e a caixinha de origamis

Sabia que um dia te encontraria naquela caixa de presentes. Ficaria ali, como mais um origami – frágil ao desmonte repentino – e’meio àquelas cartas já um pouco amassadas.

Tu se tornaria passado, espremida entre as lembranças vagas e as baixas d’autoestima recorrentes – tu deixarias de existir para ser essa carta levemente apaixonada que decidi regar com a ira de dedos rápidos e cansados; à pressão de minhas extensões mais vadias e saudosistas de teu corpo.

Como que nessa selva escura e desvairada, as flores desse caixão foram pagas e nunca soube dessa paixão; nunca foram os papéis, minha namorada.


Vinicius de Moraes: Ama(dor) dos bons

Não vou te esquecer, e não importa o quanto tempo tentei, teu batom continuou em mim; teus lábios inda estavam nos meus, no momento que fui te esquecer. Estas tuas dores e complicações — guria, o quanto te disse sobre a vida ser dessas que tenta jogar pedras nas flores e você não fechava esses botões de rosa que eram teus olhos, meu amor –

Nem Vinicius resolve. Nem Vinicius te resolve. Nem sentido tem, no viver de um grande amor, se for pra multiplicar versos no lugar de beijos; não faço questão nem dessa estrofe, pode levar — só mantenha-me o amor;


Estômago cheio, que enjoou do tempo e matava borboletas; bile anacrónica que corroía versos e os devolvia ao dicionário – João Cabral que lhe perdoe, por tirar poesia d’alma alheia.

Mas percebi que era fim de tarde, que deixei o chimarrão esfriar, que nunca comprei um livro de João Cabral e que minhas poesias já estavam riscadas diante os meus olhos – só enxergava essa tua cegueira mórbida pairando essa estradinha fina que chamamos de vida; e olhe que sempre fui míope.

Decidi hoje reabrir todos os presentes. Sentei-me ao pé de cada um para ouvir suas histórias de vida. Discuti geopolítica, filosofia e meu deus, como eles gostavam de Vinicius!

Se nem nesta caixa – em seus poucos centímetros quadrados – consegui encontrar a boa amada, era para não morrer de dor — nunca fora um grande amor.