Outros percalços

Pois se pararmos para pensar bem, todo dia é o fim de algum túnel. Tua falta foi presente tal qual tua existência. Ela varreu-me por inteiro. Dizer adeus soou-me como um soco, dado pelos ouvidos que adentra o corpo por pouquinhos.

Um soco bem forte e líquido. Escorre por entre dedos desconhecidos e arejáveis. Afoga meus ouvidos, escorrendo-me a pele e penetrando-me os poros. Nocauteando meus tecidos mais delgados. Abandonando até o requinte das lutas com regras, valia-tudo nesse aprisionado de emoções repentinamente soltas.

As moléculas do que eras, foram chocando-se. Lentamente. Entraram em convulsão, formaram cores e geometrias para um novo corpo moldado de tristeza. Desumanizando-me cada filamento de existência por vez.

Sinto-me como se não mais existisse o sol — o sol interno que torna cada ser, humano. Os calores que antes davam vida às minhas carnes, hoje assoreia-se de pecados proferidos e palavras amarguradas pelo tempo. Entope-se de amores fora da validade. Delicia-se com o mastigar de frases de efeito.

Adeus ao corpo que não sou, nunca fui. Adeus às terras altas que pensei ser eu. Tua presença foi tal qual tua falta, nunca existiu.