O Que Se Herda do Amor

Não cite Cartola se você não entendeu a letra.

O Eduardo tava meio inquieto na mesa do boteco. Mexia no celular de cinco em cinco minutos, servia-se de goles curtos de cerveja, nem pedir um Paiol pro garçom ele pediu. Saquei que tinha alguma coisa errada. Não sou desses de me meter onde não sou chamado, mas a cerveja estava esquentando, precisei intervir.

“Qual é, Dudoca? Que foi?”

“Nada não, bicho”

Sei. Não demorou um gole pra ele estufar o peito de ar e começar a falar.

“Mano, eu tava pensando aqui. O Cartola tá errado.”

Xi, lá vem merda.

“Como assim, velho?”

“Saca aquela música? Aquela principal dele. Tem uma parte que ele canta de todo amor tu herdarás só o cinismo. Tô discordando disso.”

Ignorando que o Dudu não manjava porra nenhuma de Cartola, pedi mais um litrão pro seu Robson, prevendo o tamanho e o desastre da conversa. Mandei ele continuar. De qualquer jeito, papo de boteco não é diálogo bretchniano não. Em boteco se fala é muita groselha mesmo.

“Lembra da Carlinha? Da 6° B? Pois é, dela eu herdei meu vício em Pokémon, por exemplo. Toda mina me ensinou alguma coisa, velho, sacou?”

“Hmm. Continua.”

“É isso. Eu era moleque, ela me emprestou o Game Boy e eu nunca mais quis largar. A gente ficava lá no quarto dela, a tarde inteira jogando Pokémon. A mãe dela, sabida como era, deveria achar que a gente tava aprontando. Mas que porra de transar o quê, eu queria era Blastoise.”

Dei uma gargalhada sincera, mas que não demorou muito. Logo, ele passou pra Laura, falando o quanto a mina tinha ensinado ele a gostar de samba. A Nana tinha feito o bicho tomar apreço por cerveja, boteco e tudo mais. A Flávia ensinou o menino a controlar a bebedeira.

“Essa não sei se deu muito certo.”

Engraçado. Mas eu comecei a passar um pente fino nos meus relacionamentos. Revi cada um deles na minha cabeça. Da namoradinha da oitava série à última ex. O que eu levei, de cada uma?

Talvez o fato de eu sempre ter sido um namorado babaca, narcisista e sempre tão cheio de mim foi o que bloqueou qualquer coisa que eu pudesse aprender com elas. A Sarah gostava de gato. Eu odeio gato. A Amanda fumava. É, talvez foi isso, mas eu tenho certeza que só comecei a fumar na época da Ana, bem depois. E logo larguei.

Da Nina eu não levei nada, essa tenho certeza. Ela era cheia de personalidade. Uma coleção de países que amava, de música que escutava, de filmes que assistia. Eu nunca me importei com nenhum deles.

A cada memória do Duda, um espelho torto e vazio aparecia na minha. Será que nem uma gíria? Um filme, uma novela, um seriado? Um jeito de falar, uma visão política, um tantra para os corres da vida moderna?

Nada.

Eu sou um nada. Dos casais que são esponja, aqueles que, aos poucos, absorvem o líquido um do outro, eu sempre fui a pedra.

Dei mais um gole na cerveja.

“Robson, me traz um Paiol.”

“Ué, voltou a fumar?”

“Voltei, Duda.”

“É isso, pô. Acho que de todo amor a gente herda alguma coisa. Né?”

Num último esforço puramente egoísta, tentei imaginar qualquer coisinha, qualquer uma que eu teria herdado com os longos relacionamentos que eu tive ao longo desses trinta anos.

Até que eu saquei.

De uma forma diferente da música, sim, mas estava ali, na minha cara. O Cartola tava certo.

De cada amor, só ficou o cinismo.

O Paiol chegou. Dou um trago. Odiei.


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Natan Andrade | Personagens fictícios, mas bem parecidos com pessoas por aí.

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