Capítulo IV

O Incendiário — Capítulo IV

A Casa dos Caldeira

Você está nessa aventura sem sentido enquanto sua vida está passando, Narjara.”

Foram as palavras da minha mãe. Nessa época, não havia como dizer que ela estava certa ou errada, apenas escutei até ela desligar. Afinal, só argumenta quem tem a certeza ao seu lado, eu não tinha.

“Eu tenho contatos na secretaria da cultura, posso arranjar algo pra você.”

Eu não queria. Ou, pelo menos, achava que não. No final da conversa, minha mãe entendeu minha “semana sabática” e me deixou em paz. Eu precisava disso. Um último tiro antes de abdicar da vida de escritora e me enclausurar num escritório.


Tirei o resto do dia para conhecer a cidade, missão que cumpri em algumas horas após visitar uma casa colonial que servia de museu e o coreto da praça principal.

Não sei por qual motivo a história do ex-detento me trazia tanto fascínio. Ele ter se relacionado com a empregada dos Caldeira trouxe uma cor a mais para o conto, sendo o homem inocente ou apenas um louco.


Peguei um táxi e parei em frente àquela casa. Perto das outras casas de Andronópolis, esta parecia imensa. O velho me esperava. Da sua boca, saíram exatamente as palavras que eu havia previsto:

"Essa era a casa do Coronel Lionel Caldeira."

O casarão não parecia ver um habitante há muito tempo. As paredes surradas, as teias de aranha o tapete de poeira escancaravam isso. Athos Magno abriu o portão e avançou frente àquela caverna.

O cenário era decadente, mas os detalhes gritavam que ali viveu uma família, algum dia. Athos me conduziu até um quarto do lado da escada.

"Foi aqui."

Não entendi de princípio, mas o quartinho sussurrava gentilmente que havia sido habitado por alguém prestando serviços à casa. Diolinda.

"23 de agosto, menina, ainda me alembro. Eu e Suzana estávamos sentados nessa cama apertada. Veja bem, não fazíamos nada demais. Ela havia me confidenciado que os Caldeira sairiam para um jantar, algo assim. Por isso, me senti à vontade para vir aqui."

"Vocês estavam juntos, mas nem Lionel nem Laura sabiam?"

"Eu era cuidadoso. Sabia que se o Coronel visse que eu me engraçava com sua doméstica a coisa poderia ficar ruim para o meu lado, não sabe. Por isso, fazíamos tudo em segredo. Mas nesse dia foi diferente."

O quartinho era composto por uma cama sem colchão, um armário e uma escrivaninha muito velha. Rascunhei com a visão o lugar antes da próxima pergunta.

"E por que você está me mostrando isso?"

"Estávamos aqui, no bem amor. Mas Diolinda escutou o barulho do carro. Lionel e sua esposa haviam voltado mais cedo do que ela previra. Suzana dizia 'Ah, meu Deus, ele não pode te ver aqui!' e então achei que ela exagerava sobre o fato de eu ser um subordinado do patrão. 'Calma, linda, o Coronel não há de ficar tão bravo assim não, uai' e abraçava-a. Mas ela relutou. 'Você não sabe a verdade sobre o sinhô Lionel, Magno'. E então eu fiz uma cara de desentendido."

Athos respirou fundo antes de continuar.

"Perguntei a ela o que havia demais, mas foi nesse momento que a porta escancarou-se."

Olhei para a porta, ou o que restava dela. Athos continuou.

"O Coronel abriu a porta com o olhar de alegria, mas no momento em que pôs as vistas sobre mim, seus olhos embriagados avermelharam-se um pouco mais. Ainda me alembro da boca retorcida e da bufada que o Coronel deu. Ele apenas disse 'Ocê não deveria estar aqui. E já passou da hora de dormir, Diolinda' e bateu a porta com força."

"Mas…o que ele foi fazer, depois de um jantar, no quarto da Diolinda" perguntei, antevendo a resposta.

"Diolinda começou a chorar, imediatamente. 'Você não deveria estar aqui, Magno. Vou ter muito problema.' E chorava. Mas eu com meu miolo comecei a me perguntar, e perguntei a ela também. 'Ora, Suzana, no máximo o Coronel vai danar comigo. Ele não vai te mandar embora ou coisa assim só por causa de um namorico'. Mas os olhos dela ardiam em lágrimas. 'Você não conhece o Coronel. Ele… faz coisas comigo. Sempre quando fica bêbado ele vem ao meu quarto. Algumas vezes é carinho, em outras, é raiva, mas ele toma conta de mim'. Ela disse, chorando. E eu perdi todas as minhas forças ali."

Choque. Lionel Caldeira não só tinha relações com sua empregada, mas, de certa forma, Athos deixara claro que havia algo de…violento ali. Nesse momento, ele fitava um pedaço fixo do que um dia fora a cama de Diolinda.

"Eu já amava essa mulher, menina. Por demais. Não sabia dessa história dela com o Coronel, isso nunca ela havia dito. Então, num acesso de raiva, ou sabe lá o quê, levantei dessa mesma cama aí e fui pro caminho de casa. Não me importava se eu teria que sair da corporação ou se eu nunca subiria na vida. Não, menina. Pareço um velho mal, mas nesse momento minha única preocupação era com a vida de Diolinda, a doméstica que era violentada pelo patrão. Então fui embora me sentindo fraco, incapaz. Um verme no qual o destino dá uma pisada bem servida."

Diante do relato, confesso que os pelos da minha nuca arrepiaram-se. Magno passou de um assassino louco à um incapaz em questão de segundos, mas era Diolinda quem me interessava. Ela nem ao menos parecia questionar sua condição, aquilo tudo era horrível, uma empregada doméstica que entendia que um dos seus deveres era servir ao velho coronel filho-da-puta. Mas esse homem frágil que eu havia recém descoberto também me chamava a atenção. O velho Athos sentou na cama sem colchão e pôs as mãos na cabeça.

"Foi nesse dia, menina. Eu saí daqui, coisa que nunca deveria ter feito, e fui para a minha casinha com raiva de Diolinda e do Coronel. Eu não devia ter ficado com raiva dela, ela foi a que mais sofreu, a pobrezinha, mas fiquei. E dormi sonhos horríveis. Mas eu mal sabia o que viria a seguir."

Passo a mão nos cabelos, com agonia visível, antecipando a história.

"Foi nesse dia, menina, que Lionel Caldeira foi queimado vivo em seu carro, na avenida principal, pouco tempo após ter me flagrado com Suzana em sua própria casa."

Os meus olhos arregalados não escondiam a surpresa. Essa novela acabava de ficar um pouco mais triste. E mais interessante também.


Capítulos

Prólogo

Capítulo I

Capítulo II

Capítulo III

O Incendiário é uma novela seriada aqui no Medium. Acompanhe os outros capítulos nos links acima e na Revista Simbiose. Escrita em parceria com Felipe Martins .