Foto aleatória de um típico bar de interior.

O Galego

Mentira não tem perna curta, tem BMW.

Todo mundo tem um amigo mentiroso. Por algum tempo, eu conheci o maior deles.

Quando eu morava em Abadiânia, fazendo uns bicos pro João de Deus, costumava frequentar um botecão que tinha lá perto, o Ronaldo’s Bar (o nome do dono era Danilo). O Ronaldo’s era uma pocilga de trinta metros quadrados, carinhosamente embalada pelas canções de Júlio Nascimento que emanavam do Jukebox.

Parede descascada, banheiro mofado, o copo era tão engordurado que num dia de sol daria pra fritar um ovo ali tranquilamente. Mas a cerveja, pô, a cerveja era gelada.

Foi nesse cenário que eu conheci o Galego. Cachaceiro de primeira e mentiroso de segunda. É óbvio que viramos parceiros de boteco.


Terça-feira, às seis da tarde do horário de verão eu chego no Ronaldo’s pra iniciar os trabalhos. Nem cinco minutos e me aparece o Galego, camisa do Sampaio Corrêa, um jeans pega-marreco e uma havaiana branca com azul.

Litrão.

Golão.

Cachaça de Alambique (prata).

Meio Copo.

Copo inteiro.

Vamo virar?

Virou.

A ebriedade chegando, montou-se o cenário perfeito para o espetáculo retórico d’O Galego. O circo estava na minha frente e eu tinha ingresso da primeira fileira.

“Rapaz…te contei da época que eu morei nos states?”

“Que mentira, Galego…”

“Juro, ué. Fui lá tentar a vida nas américa, mas deu muito certo não. As muié lá não ia muito com a minha cara.”

“E daí você voltou?”

“Nada, ainda fiquei uma cara lá, até contribuí com o governo americano.”

“Caralho, Galego…”

“Sério, foi logo na época dos Bin Laden lá. Os caras tava precisando de pintor na reforma do Pentágono.”

O papo chegou num ponto, que fica feio dizer que é mentira. Tem que achar a hora certa de dar o bote.

“É, rapaz, foi cada demão que nóis tinha que passar. Americano é exigente. Mas pelo menos deu pra fazer um pé de meia bom. Comprei meu carrinho, aluguei um apê e tal.”

“Galego, você anda só de bicicleta e tua casa nem chuveiro elétrico tem…”

“Pô, tá tirando? Isso aí foi depois da crise. Naquela época, lá no states, eu tava bem de vida, ué. O único perrengue que eu passei foi quando roubaram minha BMW”

“BMW!”

“É, rapaz, sufoco. Dois sujeitos entraram lá no meu cafofo, me fizeram de refém, me jogaram no porta-malas e ficaram zanzando pela cidade. Ainda bem que, na época, eu fiz amizade com um bacana lá das redondezas e o cara estranhou que eu não tinha aparecido no tiogéder (together). Foi quando eu consegui desatar uma das mãos, pegar o celular no bolso da calça e ligar pro Tom Cruise.”

“Ah, seu brother era o TOM CRUISE?”

“É, conheci ele quando fui dublê nos Missão Impossível. Gente boa, o cara.”

Dei aquela risada e falei que ia mijar. Fiquei pensando num jeito de enganar o Galego pra pegar ele na mentira, só pra dar umas gargalhadas. Depois a gente volta a falar do Goiás Esporte Clube na série B.

Voltei pra mesa, pedi mais uma dose da cachaça de alambique pro Seu Ronaldo (eu esquecia que o nome dele era Danilo) e resolvi confrontar o Galego.

“Ô, Galego, tu falou que trabalhou nas obras do Pentágono, lá em Washington, como é que teve tempo de virar dublê em Hollywood?”

“Pô, fui de mudança, pegando carona.”

“Mas, aí, você diz que mora aqui na cidade tem vinte anos. As contas não tão batendo ué!”

“Rapaz…”

Quando ele ia responder, o celular de flip começou a vibrar. No visor, tava escrito “Galego Pai”. O Galego já tava com a mão pra atender e, assim, se safar da minha arapuca. Mas eu interrompi. Nisso, ele manda:

“Eita, essa é urgente, preciso atender!”

“Ô Galego, depois tu atende isso aí, você nem fala muito com seu pai mesmo!”

“Meu pai? Dá lincença, mano. Meu pai nem celular tem, quem tá me ligando é o Bill Clinton!”


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Natan Andrade de Medeiros | Que também conta umas mentiras por aí.

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