O encontro

Uma história de perdas e ganhos

Melankoli — Edvard Munch, 1893

Conta-se uma história de um certo homem infeliz que, dúbio em relação à sua existência e cansado das comparações feitas com deprimidos a outras doenças, perambulou entre rios, montanhas, florestas e até certos mares atrás de resposta a fim de provar que o enfermo da alma também tinha direito de superar seus limites — e suas limitações!

Desolado com o desastre da sua jornada, resolveu descansar em uma pequena cidade ao norte da Europa, cercada de montanhas, rios e uma linda arquitetura, tipicamente escandinava. No outro dia, após um desjejum no hotel, foi até o mercado da cidade conhecer um pouco mais sobre a cultura local. O mercado parecia ter sido encomendado por algum tipo de deus, tudo em seu perfeito lugar, cores vivas, peixes de todas as espécies, crianças comendo frutas que os vendedores ofereciam, um ótimo ambiente, uma transmissão de muita harmonia e paz.

O homem, ainda que sentisse toda a energia positiva do mercado, prostava-se melancólico. Caminhando nas trevas, perdido ante à razão e ainda nutrindo a ideia de que era um fracasso ambulante, uniu o que restava das suas forças e saiu para refletir. Caminhou até a beira de um fjord, onde um velhinho pescava em um pequeno barco.

O homem, ainda muito melancólico, sentou-se próximo a um córrego onde subiam salmõess e começou a jogar pedras. O velhinho, nervoso com o apedrejamento coagiu:

— Meu menino, o que faz com os peixes? Vai comê-los, pelo menos?

— Não, vai que assim acerto algo na vida, ao menos uma vez.

— Não reclame da sombra ao redor… Olhe a sua volta! Observe com atenção o espetáculo da vida! — gritou empolgado e entusiasmado, segurando cinco ou seis peixes em cada mão.

— Vida, meu senhor? Que vida? Procuro essa vida e nunca a encontro.

O velhinho recolheu suas coisas, amarrou o barco e foi andando. O homem, reagiu imediatamente, correndo e gritando:

— Onde o senhor está indo?

— Saindo.

— Oras, pensei que estava entusiasmado, rindo e feliz com essa estonteante natureza.

— Meu jovem, você acha que isso só aconteceu com você? Eu convivo com meus demônios, os mesmos demônios que sinto em você. Mas consigo domá-los, ilumino-me para que não falte claridade no caminho.

— Somos parecidos, então?

— Talvez. E outra, não se engane, há inúmeros como nós por aqui, porém, temem, julgariam-se fracos se falassem sobre o que os assola: depressão, alcoolismo e até dependência.

— O silêncio perante tudo isso é o que mais mata! — levantou a voz entre os dentes e chorou em seguida.

— Porque choras?

— Eu perdi minha mulher… dessa forma. Ainda não encontrei respostas, tampouco conforto.

— Façamos o seguinte, segue para ao meu chalé, é próximo, e como não estamos no inverno, não haverá muitos obstáculos.

Uma vez no chalé, o homem reparou fotos de família, mas preferiu não questionar, na incerteza de despertar um passado obscuro . A lareira foi acendida, ainda que fosse final do verão, o senhorzinho preparou uma sopa de salmão com legumes e ofereceu ao homem. Ainda saboreando aquele prato tipicamente alpino, o velhinho perguntou:

— Foste ao mercado central?

— Sim, aquilo é um retrato do paraíso!

— É, só um pedaço, apenas um retrato. Mas uma vez incendiado revelar-se-á o que de fato é: cinzas. Muito do que era luz, hoje está perdido. Este é o problema maior: Não é o da sombra à nossa volta, mas da falta de luz em nós mesmos!

Este é o problema maior: Não é o da sombra à nossa volta, mas da falta de luz em nós mesmos!

— Eu não sou capaz de nutrir a luz, vivo nas trevas, perdi as esperanças. E ei! Sobre o mercado, parecia gracioso, harmonioso, pessoas felizes… As crianças, frutas, músicos tocando sonatas.

— Meu jovem amigo, se até Judas pediu perdão e luz, porque você não o faria? Comece pelo essencial: identificar e aceitar que só você pode mudar. Porém, nunca esqueça do apoio, ele é arbitrário!

Já esta cidade, é repleta de casos de suicídio, todos em detrimento da depressão e outros transtornos mentais. O que falam sobre abuso de drogas e alcoolismo são apenas efeitos colaterais. E eu, o único psiquiatra da cidade, não acredito que é o "frio" que causa a epidemia. Acredito ser um assunto que há interesse em ninguém falar. Envolve a indústria, envolve o consumismo. Acredite, na capital desse país, quando atuava no hospital central, recebíamos inumeros casos. 1 a cada 1000 cidadãos. Some a população total dos enfermos, agora encontre o lucro e você entenderá o que estou dizendo.

— Mas o que se encontra por trás disso no que tange aos pacientes

— O foco no indivíduo como o cerne do universo está virando convertendo-se em patologia. Grande parte mantêm-se silenciosa, esquivando-se ou disfarçando-se aqui ou acolá, a fim de não expor suas fraquezas frente a essa cultura do "homem moderno, que nada o destrói, nenhum desafio o intimida". Mas como psiquiatra e pesquisador, sei que no fundo elas temem a ruína do modelo de sociedade perfeita a que foram forçados— e que não está dando certo.

Sei que no fundo elas temem a ruína do modelo de sociedade perfeita a que foram forçados — e que não está dando certo.

— Não está dando certo? Como assim? Eu olhei nos olhos daquelas crianças, pareciam tão angelicais.

— São sim, até o momento em que chegam à maioridade e a pressão para engressarem em uma universidade, obterem um bom trabalho (isto é, boa remuneração), etc, torna-se o único objetivo em suas vidas. Essa relação de consumo e obstinação pelo material — ao que apenas sacia e atinge os sentidos — limita cada indivíduo a um só objetivo e faz girar muito bem a economia, inclusive a da saúde mental. E essa tendência vem crescendo à medida em que mais jovens ingressam nessa jornada materialista: Quanto mais desejam destaque ou poder, mais sofrem com suas conseqüencias — ou alguém próximo sofre com isso.

— Jamais imaginaria que um jovem naquele mercado cortando um pedaço de charque simpaticamente nutrisse ideias negativas a ponto de cometer suicídio — reagiu o homem, surpreso.

— Há mais homens entre suicidas do que se possa imaginar, meu jovem…

Há mais homens entre suicidas do que se possa imaginar

O homem, confuso e desnorteado, perguntou ao ancião:

— Então, meu senhor, o que acha que levou minha mulher a tomar a mesma decisão que há tempos ando nutrindo desde sua partida?

— O que levou? A mesma decisão que está tomando agora: o delírio de que isso irá por fim na dor que está sentindo. Outra ilusão é a de que conseguem suportar tudo isso a sós. Essa estratégia não passa de um mero desvio sutilmente perverso da cultura do "auto-conhecimento" para vender livros em massa, gerando riqueza — apenas à editora e ao autor — com uma ideia barata e facilmente replicável, uma receita de bolo que até um papagaio repete no intuito de dar certo. Olhe para você, trouxe junto de si excesso de peso, um "alojamento nas costas". Detestava quando recebia pacientes assim, pois sabia que estavam tentando enfrentar a sós uma doença tão cruel. Pareciam camelos: exibiam as patas no chão e o dorso extremamente pesado. Eram vários e sucessivos, diariamente lidava com ao menos um. Cobravam-se muito e em detrimento disto chegavam ao ponto de acharem-se pessoas ruins, más e de péssimo caráter. Veja, a doença é perversa ao ponto de convencê-lo ser de má índole — e isso está alheio a sua escolha. Perdi muitos pacientes devido a esse rito sensacionalista, o "de que sozinhos eles conseguem".

Vi enfermos abandonando o tratamento, considerando-se sãos, até que uma crise chegasse e destruísse algo em sua vida, isso quando não era ele mesmo. Enfermos como você necessitam de um tratamento em várias posições, em cada ponto da sua vida, com vários profissionais, assistentes, paliativos. E deve-se, principalmente rever, educar e descobrir o seu "eu" integral, sem misticismos, sem fardos desnecessários, e sem ilusões baratas do super-homem (mal aplicado) em que o caminho e a batalha só podem ser enfrentados a sós. Isso não quer dizer que você deva deixar que profissionais façam por você. A escolha e a mudança são vontades que não podemos resolver. É assumir a batalha e chamar ajuda, sem que ela faça o que você precisa fazer. Lembre-se: Ninguém pode fazer por você, mas isso não quer dizer que você deve fazer tudo sozinho.

E então diremos, pela primeira vez, nunca mais às soluções individuais para problemas coletivos.

Acredite, um dia, dessa cultura mencionada acima, nada sobrará. E então diremos, pela primeira vez, nunca mais às soluções individuais para problemas coletivos.

— Mas meu senhor, se pode ajudar tantos, porque veio parar aqui?

— Jovem, confesso a ti que essa não é uma resposta fácil. Fui afastado da capital por apenas fazer o meu trabalho: medicar (sem me prender aos contratos), encaminhar, aconselhar a psicoterapia, sugerir exercícios, terapia alternativa. Tentei ser o mais humano possível. A capital contempla vários pacientes que ninguém deseja enxergar. Falta vontade. Um país de IDH altíssimo como esse, como isso é possível? O principal item que me atrapalhava naquela cidade era a infestação de palestras de auto-ajuda. Então comecei a receber muitos pacientes como contei a você, com culpa, achando que resolveriam a doença sozinhos. Com o tempo fui afastado e aqui estou, fazendo o mesmo trabalho e tentando salvar vidas nesta pequena cidade, o que tem dado muito certo…

Valorize cada pedaço da sua liberdade. Sinta, desde agora o prazer de ser livre. Na dúvida, consulte estes fjords e veja como a Natureza é implacável. Não se iluda, a tristeza é como a escravidão, você pensa estar livre, mas não é capaz de enxergar as correntes. Por isso, não a deixe penetrar em você

A tristeza é como a escravidão, você pensa estar livre, mas não é capaz de enxergar as correntes

E o homem, ainda que muito triste, sentiu-se abraçado pelas claras, sinceras e incisivas falas daquele senhor. Algo estava dizendo, no fundo daquele jovem que ainda observava o abismo, que esse encontro o levaria para um outro lugar…

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