O Duelo — Parte V

História em cinco partes sobre a dor, o sobrenatural e a cachaça.


Parte V— A História de Zé da Cana

Era Dona Oneide só na pele, mas encarnado era Zé da Cana. Os trejeitos não me deixavam mentir: o cigarrinho de palha segurado entre o polegar e o indicador, a perna direita cruzada sobre a esquerda e o olhar de quem nunca estivera completamente sóbrio em 40 anos de vida. Dona Oneide, ou pelo menos o corpo de Dona Oneide, já havia ingerido uma boa quantidade de álcool, mas lá estava Zé da Cana, completamente sóbrio por trás dos colares daquela mulher.

Eu não.

Eu achava que era conversa fiada. Que não tinha espírito de Zé porra nenhuma e que tudo o que aconteceria hoje seria uma boa cachaçada de graça no Bar do Seu Dionísio. Sendo assim, não nego que a visão começava a querer multiplicar-se.

Aí eu te pergunto: Quem é que chega baleado pra um duelo de pistolas? Fosse num vídeo game, a barrinha de vida estaria já pela metade, e Zé da Cana era o último chefão.

"Então ocê quem vai me derrubar na cachaça, filho da puta? Hahahaha!"

Definitivamente, não era a voz da velha. Se apertasse os olhos um pouco e virasse a cabeça de lado, dava até pra ver o Zé ali.

"Soy yo, filho da puta! Tá rindo porque começou a beber agora, mas eu, Zé, tô bebendo desde o meio dia. Ainda assim, vou te destruir!"

Era estranho chamar Oneide de Zé, mas chamar aquele puta vozeirão de Oneide era que não rolava.

Nisso, Zé dá uma cuspida no chão e serve três doses de Vale Verde pra ele e uma pra mim.

"Vai, lazarento. Pra cada uma que tu beber, eu bebo o triplo!"

Não por menos o cara era uma lenda. Mas hoje era dia de tomar o trono do maior cachaceiro da cidade. Hoje era dia de virar o maior cachaceiro da cidade.

Virei minha dose. Enquanto Zé virava a dele, roubei um dos seus três copos e virei também. A garganta arde, o estômago reclama, mas a coragem agradece. Zé manda o segundo copo goela a dentro. O duelo começou.

"E aí, rapaz, por que o velho Dionísio foi atrás docê? Não tinha ninguém melhor pra missão não?"

"Ele me escolheu porque eu aguento, Zé."

"Rapaz, mas…por que? Tem nada melhor pra fazer do que ficar espantando encosto do bar dos outros numa noite de segunda-feira não?"

Eu tinha algo melhor pra fazer? Se eu estivesse em casa, não estaria fazendo nada com ninguém. Talvez bebendo. Sozinho. Balanço a cabeça negativamente, tentando fazer cara de mau. Acho que falhei.

Zé levanta, vai até a geladeira e pega dois litrões, de uma só vez. E também uma garrafa de cachaça para cada um. Entendi o recado. Morte súbita.

“Um litro de cachaça pra cada. Quem gorfá ou cair de desmaio primeiro ou desistir de beber, perde.”

Fiz que sim com a cabeça e servi a primeira dose. Ardeu, queimou língua, garganta e dignidade. O malandro Zé me serviu cachaça quente e ruim. Quando eu digo quente, não é temperatura ambiente, meu amigo, é cachaça que resolveu tomar um banho de sol nas horas vagas.

Zé, seu desgraçado, minha cachaça tá quente!”

Quer dizer então que o novo maior cachaceiro do meio-norte goiano não guenta nem uma cachacinha quente?”

Ele tinha um ponto. Mandei uma dose e um gole de cerveja, um blend morno pra abrandar o golpe espetado da cachaça quente.

Tu é bom, rapaz. Mas nunca há de ser como eu. Falta coisa, aí.”

Zé manda duas doses seguidas goela abaixo, seguido de um gole de cerveja direto do litro.

Vou te contar minha história, rapaz, depois você decide se pode um dia ser o rei da cana.”

Sorvendo-se de mais duas doses, Zé começa seu discurso inflamado.

“Teve um tempo em que eu amei. Eu fui completamente apaixonado, rapaz. Mas amor cavuca o peito da gente.”

Bateu saudade do perfume cítrico da Laura.

Eu que sei!”

Um brinde, mais uma dose. E mais uma.

"Não é de uma hora pra outra que tu vira o rei do boteco, moleque. A alta botecagem requer sangue e suor. Por isso, eu vou te contar a minha história. Mas antes, dê um gole de verdade nessa porra."

Dizendo isso, Zé serve uma dose descomunal para ele. Faço o mesmo. Hoje não era dia de miguelagem na dose. A visão já embaça, o vômito quase vem. Mas vinte segundos e um gole de cerveja depois e eu consegui me recompor.

"Eu tinha um irmão, João de Deus. Ele levava uma vida boa, era casado com a Carmen, uma morena que era bonita como o Diabo. Eu, moleque, eu tinha uma vida boa também, mas do meu jeito. Nunca me faltou serviço, casa e pinga. Mulher não faltava também. Eu sempre tive rolo com uma, duas, sete. Sei lá. Eu era um cabra bonito, moleque."

Soltei um "impozivel" sem querer. Mais um gole na cachaça. Mandei o Zé conzinuar. A língua já não obedecia mais. Foda-se. Zé deu um golão servido na cachaça, direto da garrafa. A cachaça dele estava mais vazia. Porra, eu tava perdendo.

"Eu tinha a vida que eu merecia. Era uma boa vida, moleque. Eu fazia o que eu queria. Meu irmão não, viveu a vida regrada. Juntou dinheiro, comprou uma casinha boa. Nunca olhou pra outra mulher que não fosse a dele. Sua alegria era tomar uma cervejinha aos domingos, sem exagero. Eu tinha pena dele. Uma vida levada a pão com manteiga, eu não queria isso pra mim."

Zé sinaliza que vai beber outra dose. Caralho, tá foda de acompanhar. Mas não era momento de desistir. Eu tinha que acompanhar. Começou como um convite para beber de graça, agora era a oportunidade de uma vida, quinze anos de botecagem seriam recompensados. Amanhã, iriam me apontar na rua e saber que eu era o verdadeiro rei do boteco. Eu derrotei Zé da Cana. Com isso em mente, respiro fundo e mando mais um copo americano de cachaça pra dentro, que já não ardia mais tanto assim.

"Mas meus anos de gloriosa vagabundagem foram passando e, não sei porque caralhos, aquela vida começou a cansar. Você vai entender, moleque, você vai entender porque estou te contando tudo isso. As mulheres, aquelas que eu amava, um dia, foram perdendo a graça. Eu lutei contra essa vontade louca de me aquietar, mas foi complicado. Nunca parei com uma mulher só, até porque, nenhuma delas me aguentou por muito tempo. Mas daí, moleque, o Diabo falou na minha cabeça e sentou no coração."

Mais uma dose. Enquanto a minha cachaça encontrava-se pela metade, Zé já tinha esgotado a dele a um terço da garrafa.

"Porque vozê tá me contando essa merda? Tá me diztraindo pra não perder essa porra?"

"Se acalma, moleque. Se eu falo, é pra tu escutar. Quando o rei do boteco fala, os outro se cala."

Zé manda mais uma pra dentro. Eu também. Essa quase volta. Quase. Prendi a respiração, senti meu corpo, em desespero, rejeitar o veneno, me batendo por dentro. Mas meu corpo perdeu e a cachaça se acomodou lá dentro.

"Fiquei caído por uma muié. Paixão é um troço ruim que cavuca o peito da gente. E eu não tirava ela da cabeça por nada nesse mundo, moleque. E eu sentia que ela me olhava também, eu sentia. Eu sabia que o marido dela não tinha a aventura que eu tinha, e ela também sabia disso. Foi um dia, depois de um churrasco na casa do João. Depois que ele dormiu, a gente se beijou, no fundo da casa. Eu tava perdidinho pela Carmen, e ela jurou que sempre me amou."

Puta que me pariu.

"Nóis se amou, moleque, sempre escondido. Eu olhava pra cara de pastel do meu irmão e dava risada, durante os churrascos de domingo. Mas a bobeira toma conta do coração dos apaixonados. Começamos a nos ver com mais frequência, as vezes de dia, no meu barraco. Fizemos planos de abandonar tudo e viver de amor, deixar o otário do João pra trás. E íamos fazer isso."

"Tu é um filo da puta mermo, hein?

Mais cerveja. Mais cachaça. Igualei a quantidade das nossas garrafas, que agora estavam ambas com um terço do seu volume total. Puta merda, eu ia ganhar.

"Zé, seu filo da puta. Eu tô te ganhando, eu zou o rei dessa desgraça!"

Zé, sem rodeios, dá outro gole direto da boca da garrafa, me ultrapassando novamente. Só de ver aquilo, o vômito quis sair, de novo. Prendi a respiração mais uma vez. Tá tranquilo. Minha vez de beber. Tudo certo, segue o jogo.

"Carminha e eu estávamos a um passo de fugir pra Goiânia, começar outra vida lá. Nessa época, moleque, eu bebia só quando eu estava feliz, eu larguei o fumo e fui feliz. Mas, um dia, como não poderia deixar de ser, João descobriu tudo, moleque. Ele chegou em casa, com revólver apontado pra gente."

Vi uma lágrima escorrer do rosto de Zé. Era o corpo de Dona Oneide ou era Zé quem chorava? Era Zé da Cana a imagem que eu vi ali? Te juro que já não sabia mais.

Mais um gole. a cachaça de Zé estava quase no fim. A minha não. Dei mais um gole também. O gorfo quase vem, outra vez.

"João espancou a Carmen, eu apanhei em seguida. Tentei lutar, ele me deu um tiro no joelho. O homem tava possuído, moleque, ele não pensava, só gritava 'Eu te amava!' olhando pra Carmen. Pra mim, ele dizia 'Meu próprio irmão!'. E chorava. A cara dele era uma vermelhidão que só. E batia nela, e eu nada pude fazer. Eu não consegui impedir que ele atirasse nela, bem na cabeça. A cena nunca vai me sair da memória. E depois foi a minha vez, ele me apontou a arma eu vi ele vacilar…e depois, o tiro surdo."

Eu tava bêbado, mas não doido.

"E como foi isso, Zé, se depois você veio pra cá? Antes de sua morte morrida, você andava por aí, bebia bem aqui neze bar. Voze morreu, mas tava vivo antes."

Nesse momento, minha visão era só um borrão sem vida e escuro do Bar do Dionísio. Nesse momento, nesse pequeno e incerto momento, eu tive certeza que nem o corpo era mais de Dona Oneide, era Zé da Cana quem estava ali, e ele se entrega a um choro copioso, com o cigarro tremendo entre os dedos.

"Eu sou João de Deus. Eu matei minha mulher e meu irmão, vinte anos atrás."

Caceta. Zé da Cana, ou João da Cana, ou João de Deus, sei lá, levanta a cabeça e me olha, mas não era mais tristeza ali, era o olhar de quem já matou e pode matar outra vez.

"É por isso, seu moleque filho-de-uma-puta, é por isso que você NUNCA HÁ DE SER COMO EU! NUNCA!"

E deu mais um gole na cachaça, e ela quase se esvaziou. Eu acompanho. Por um segundo, tive pena daquele homem, daquela história. Mas eu também tinha minhas histórias. Eu mereço ser aquilo.

"E você, moleque, deve achar que ser o Zé da Cana é fácil. Ser o rei dos botecos exige sangue. Eu não escolhi essa vida, mas me agarrei a ela pois era a única coisa que eu tinha. A minha única vitória era a graça de ser o melhor de copo desse mundo, entendeu? Eu não tinha NADA! Eu me agarrei ao copo de cana e deixei ele me matar."

"FODA-SE! Eu mereço ser o rei da cana! Eu merezo, porra!"

E levanto a garrafa pra cima. Zé da Cana teve seu tempo, e ele acabou. Sua redenção no copo seria o meu triunfo. Se ele se agarrava à cachaça para esquecer as merdas que ele fez, eu me agarraria por ser a única coisa que me restava nesse mundo. Dou mais um gole. A garrafa quase acaba, assim como a de Zé, ou João. Ele, por sua vez, empurra a garrafa ao centro da mesa. Ele desistiu.

"Não faz isso, moleque. Não tem graça ser o maior cachaceiro do mundo. Eu ia aos botecos e a falsa felicidade tomava conta de mim, principalmente quando tinha platéia. Eu era o rei. Mas quando eu botecava sozinho, sem ninguém, eu olhava pra garrafa e tudo o que ela me devolvia era o rosto do meu irmão. E as vezes eu conversava com ele. E com a Carmen. Só…vai embora, moleque. Hora de ir pra casa."

"Eu prezizo ganhar! Eu não tenho nada, Zé, nada! Hoje eu sou ninguém, e não dá pra viver no vazio. Quisera eu ter matado alguém, ou tido uma família que me abandonou, pra ter motivo de fazer a cachaça chorar. Mas nem izo eu tenho. Eu não zou nada, Zé, mas amanhã, quando as portas desse bar abrirem novamente, eu serei alguém. Eu serei o Rei da Cana, o mais mítico dos cachazeros da cidade e do mundo! Todo mundo vai saber que eu derrotei o Zé da Cana, e eu vou ser alguém. Por um dia eu vou ser alguém!"

Chegou a hora. Zé me olhava com a boca torta e o olhar de morte.

Eu levante a garrafa de novo, e fui tomar até a última gota, mas, sem aviso, Zé pula por sobre a mesa e vamos de encontro ao chão. Ele tentava tirar a garrafa de minha mão. Ele sabia que teria que cumprir a promessa e sumir de vez do mundo dos vivos. Eu ia beber até a última gota daquela cachaça.

Rolamos no chão, trocando murros e pontapés. A garrafa rola para o outro canto do bar. Eu sinto a visão embaçando ainda mais. Os músculos já não respondem direito.

Engatinhando, saio em busca do líquido. Era meu. A passagem para a glória. Era o caminho que me levaria do nada ao título de maior cachaceiro do mundo.

Zé me agarra as pernas, me impedindo de alcançar a cachaça. Eu chuto a cara dele de qualquer jeito e saio em busca da garrafa.

É agora.

Um gole, depois outro, e mais um.

Sento no chão do bar, encostado no balcão. Eu consegui. Eu derrotei Zé da Cana.

Olho para os lados e ele não está mais lá. Dona Oneide dormia sentada na mesa. Seu Dionísio também.

"Eu sou o maior cachaceiro do mundo. Eu expulsei Zé da Cana."

Começo a rir baixinho, enquanto a visão se apaga e a vida vai embora, devagarinho.


Luz. Muito claro. Abro os olhos. O Bar de Seu Dionísio estava inundado por uma luz branca. Quanto tempo passou?

Alguém se aproxima. É João de Deus. Agora eu estava sóbrio, meus olhos podiam ver bem.

"Vamos, rapaz. Já é dia, o boteco fechou. Hora de ir pra casa."

O Duelo é uma história em cinco partes sobre um fenômeno estranho que acontecia num boteco de interior. Leia os outros capítulos na Revista Simbiose.

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV


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Natan Andrade | Uma ode ao bom cachaceiro. Agradecimentos à Fernanda que teve a paciência de me escutar e ao Felipe que me ajudou a pensar a história.
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