O Duelo — Parte IV

História em cinco partes sobre a dor, o sobrenatural e a cachaça.


Parte IV— Opa, meu sucumbido, desce mais uma!

A mais vagabunda das santíssimas trindades repousava, agora, na primeira mesa do boteco do Seu Dionísio. Já era noite, quando chegamos e o velho baixou as portas do boteco. Exclusividade para o embate final. Camarote da invocação. Imperdível.

Dona Oneide trouxe umas quatro daquelas velas de maconha. Maconha ou macumba? Sei lá. Espalhou-as pelo bar, fez todo o mis-en-scène. Confesso que bateu um levíssimo cagaço, que só seria espantado depois do copo gelado seguido da dose quente.

Seu Dionísio também seguiu o ritual, preparando o mis-en-place daquela batalha suja. Copos americanos e de dose na mesa, cerveja gelada, cachaças à disposição.

Vai começar.

Os três sentados à mesa. Um impasse mexicano pra ver quem beberia o primeiro gole.

Dona Oneide fez as vezes. Encheu o copo de todo mundo e bebeu. Dois segundos de tensão, mas nada do Zé da Cana aparecer. Seu Dionísio parecia ansioso.

"E aí, Oneide, como é que vai ser?"

"Não é assim não, meu véio. O convidado tá chegando. Por enquanto, vamos bebericar um tiquinho, pra ver se ele se apressa."

Boa, Oneide. Essa é das minhas.

Uma, duas, três, cinco cervejas. Só pra esquentar. Seu Dionísio pediu pra que escolhêssemos uma pinga — uma boa — que era pra ver se o espírito chegava mais rápido. Pois demore, Zé, não venha não. Chegue daqui uns 30 litrões depois, só, que é tempo de eu já esquecer o motivo de estar aqui. O motivo de viver, também. Hehe.

Pedi uma Canarinho. Seu Dionísio não se fez de rogado. Dona Oneide ficou olhando pra mim com aquele olhar de quem já viu tudo daqui pra frente e me pergunta:

mizinfi, como que tu veio parar aqui? Pois daqui você num é!"

"A vida me trouxe, né, Dona."

Seu Dionísio se meteu na prosa.

véia danada, já vai amolar o menino? Vai tirar uma graninha dele também é? He he he!"

"Ô seu véio, num diga isso não. Eu num preciso de dinheiro de quem num quer me dar. Mas é que nesse menino tem um buraco, um buraco bem fundo. Dá pra ver do outro lado dele, como se fosse invisivi. Isso daí é coisa que dói, que foi arrancada nos dente, pouquinho a pouquinho. Mas me responde lá, menino, quando foi que o pai e a mãe morreram?"

Caralho. Como que essa velha sabia?

"Dona Oneide, eu não tenho que falar nada não, mas pra senhora eu falo. Pai e mãe morreram de acidente, lá em São Paulo. A única coisa que sobrou era a casinha que eles tinham aqui ainda, do tempo do vô. É lá que eu vivo. Mas tem tristeza nenhuma não, Oneide!"

Ergo o copo. Seu Dionísio completa. Viro em três goles. Glup, glup, glup. Nem precisou de sinal, Dionísio já abriu mais duas na mesa. Sirvo o copo, mais um copo virado. Encho de novo, a garrafa já acabou, Seu Didico, ágil como ele só, manda mais uma. E mais uma e depois mais umas três.

"E tem como ser feliz com um buraco no mêi, menino? Vivendo sem ninguém, só de migalha?”

Seu Dionísio deu uma bufada, virou seu copo também e se pôs a falar.

"Ô, Oneide, diabo, a vida é assim mesmo. Quando eu perdi meu velho, eu tinha era oito anos, num sabe. Eu virei o homem da casa nessa idade. Quando peguei e cresci mais um pouco, comecei a trabaiá de garçom, bem aqui mesmo, nesse bar que nóis tamo. Trabalhei demais, sô. Encontrei uma muié, arrumei filho, fui virando gente. Quando o Tonico, o antigo dono, tava pra se for, eu dei meu pé-de-meia pra ele e comprei o boteco. Bem no dia, Oneide, bem no dia que eu fui contar pra mulher do boteco comprado foi o dia que meu menino morreu. Cinco anos, Oneide, e o bichim se foi. Era pra eu viver na amargura, mas a vida seguiu. Hoje tô aqui, firme e forte. As alegria vai tampando as tristeza."

Caralho, Seu Didico. Puta história, hein. Enchi a dose de Canarinho e tomei. Depois enchi mais uma pra mim, uma pra Dona Oneide e uma pro Seu Dionísio. Um brinde ao menino do Seu Didico! Viramos.

Mas Dona Oneide estava mais convencida de que o céu é vermelho do que da minha felicidade. Dou mais uns goles na cachaça.

"Quando é um pedacinho dá pra tampar sim, mizinfi. Mas quando é um buraco de sofrência tão grande que não dá nem mais pra sentir direito, as coisa não tampa. E se não tem alegria na vida, como que tampa?"

Pesou. Resolvi encerrar o assunto.

"É, Oneide, é foda mermo."

Virei mais um copo. Eita, que a garganta secou, chega deu um nó. Coisa esquisita. Eu, hein. Seu Dionísio, traz mais uma, meu amigo! Que a conversa tá rendendo e a cerveja — de graça — tá maravilhosamente gelada. Mais meia dose de cana. Eita, que essa já tá pela metade. Dona Oneide se serve também. Depois do gole, Dona Oneide dá uma tossida. Os olhos da velha estavam ficando vermelhos. Vermelhos até demais. Eita porra, será que era vela de maconha mesmo? Que merda!

Dessa vez, Seu Dionísio levanta, pega mais duas cervejas e uma cachaça nova em folha. Seu Dionísio já se encontrava na mão do palhaço. Completamente embriagado. O velho não aguentava tanta cana assim. Serviu mais três doses de Vale Verde. Bebemos. Serviu ainda mais três doses e mais dois litrões de cerveja e voltou a falar.

"As vezes dá pra ser siliz com pouco, Noneide. Óia o Zé, não tinha nada, só seu dom pro copo de bebida, e o velho Zé foi siliz, não foi?"

Caralho. Esquecemos do Zé e do porquê estávamos ali. Os olhos de Dona Oneide cada vez mais vermelhos. A velha ficou calada.

Seu Dionísio, já muito bêbado, só abaixou a cabeça na mesa e pôs-se a dormir. Como Oneide nada falava, eu mesmo busquei mais dois litros de cerveja e abri na mesa. Virei dois copos seguidos. Beber de graça deixa a vida até mais leve, pensei. Mais uma cachacinha. Uma garrafa já foi. A ebriedade começa a chegar, invariavelmente.

Que susto da porra. Quando sirvo mais uma dose olho para a velha, seus olhos estão praticamente em sangue.

"Dona Oneide, a senhora tá bem?"

Sem aviso, as mãos da velha agarram-se na mesa e começam a tremê-la. A respiração fica forte, como se faltasse o ar para Dona Oneide. Eita, porra. Deu merda. É um AVC induzido pela vela de maconha, certeza. Sem saber o que fazer, me agarro ao meu copo de cerveja e me mantenho firme a ele. Eu chamava pela velha, dei umas cutucadas no Dionísio, mas nada dele acordar. Eita, porra. Novamente, a sensação de que o teto estava embaralhando-se. Que porra é essa? A tontura na cabeça só aumenta.

Uma lágrima de sangue começa a descer o rosto da velha. Tá morrendo. O que foi que eu fiz? Essa velha não tinha idade pra beber tanto, eu sabia!

Em meio àquela loucura de velas e cachaças, fui em busca do telefone pra ligar pra ambulância. Mas três passos depois, o chacoalhar da mesa cessa. A tontura passa, o teto não está mais dançando.

A velha morreu?

Olho pra trás, lentamente. Dona Oneide estava acendendo um cigarro de palha. Na maior calma do mundo. O medo começa a me bambear as pernas.

Eu volto a sentar na mesa sem movimentos bruscos. Dona Oneide pega a garrafa de Vale Verde e vira no bico. A garrafa volta à mesa com um baque forte, muitos goles a menos depois. Com uma voz estranhamente calma e grossa, ela começa a falar comigo. A vermelhidão nos olhos sumiu.

Então você acha que sabe beber, moleque?

Boa noite pra você também, Zé da Cana.


O Duelo é uma história em cinco partes sobre um fenômeno estranho que acontecia num boteco de interior. Fique atento para os próximos capítulos na Revista Simbiose.


Parte I

Parte II

Parte III

Parte V

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Natan Andrade | Uma ode ao bom cachaceiro.

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