O Duelo — Parte III

História em cinco partes sobre a dor, o sobrenatural e a cachaça.


Parte III — Começando os Trabalhos

De começo, eu também não acreditei. Tem que ser um sujeito muito bom de crença para, de cara, entender que o fantasma do seu herói de bairro habitava um dos mais infames bares daquela cidadezinha do meio-norte goiano. Mais fé ainda era exigida do sujeito escolhido para a intrépida missão de expulsá-lo de lá.

Mas para um cabra sem emprego, sem amigos e sem-vergonha como eu, não fazia mal dar uma olhada, não é?

Carteira, chaves, cigarro, uma latinha de cerveja e pronto. Simbora, maestro.

Seu Dionísio me botou dentro do Monzão que fez as vezes de Caronte, ligou o Amado Batista no máximo e me carregou às margens da Avenida das Mangueiras, nosso Rio Estige à moda do cerrado.

"Rapaz, mas, vem cá, você mesmo nunca mais apareceu no meu boteco. Que foi?”

Seu Dionísio me perguntou com sincera curiosidade. Mas pra falar disso, eu teria que voltar à alguns meses atrás, quando Laura, minha nega, me deixou pra seguir a vida de verdade. Teria que falar sobre o serviço na marcenaria da cidade, serviço que perdi. O dinheiro tava contado, o coração tava partido. Até cheguei a ir algumas vezes no boteco do Seu Dionísio e em outros na cidade pra esvaziar um pouco as lágrimas no copo de cachaça, mas depois de um tempo percebi que, se beber em casa estava mais barato, melhor ficar por lá mesmo. Resolvi responder pela metade.

"É, Seu Didico, resolvi dar um tempo de bar mesmo. Grana curta."

Ele respondeu com um hmm e ficou por isso mesmo. O silêncio guiou o carro, mas não para o bar do Dionísio.

"Ô Didi, que mal lhe pergunte, mas pra onde a gente tá indo?"

"Rapaz, você sabe invocar espírito? Pois é, nem eu, mas tem alguém que consegue."


O Santuário da Dona Oneide tinha cheiro de loucura. Um misto de cabaré com igreja, por mais pecaminoso que isso possa soar. Deus que me perdoe, meu amigo, mas foi daquelas comparações que a mente faz e gruda na parede da cuca, sem jeito de tirar.

Entramos com um pé de cada vez. Quando menos vi, estava na frente da imagem mais maluca da vida. Dona Oneide era uma velha no alto dos seus 70 anos, incontáveis colares abraçando seu pescoço, cheiro de colônia barata e um olhar de futuro, difícil de se encarar.

"Ô meus fi, o que cêis querem com a velha Oneide?"

Soprando a fumaça da vela mais próxima, Seu Dionísio mandou:

"Esse é o cabra, Oneide, é ele quem vai desafiar o Zé da Cana."

Aprochegando-se um pouco mais entre seus colares, Dona Oneide pôs-se a me analisar.

"Vejo o vazio em tu, mizinfi. Tu tá procurando paz no Velho Zé, mas será que o Velho Zé vai encontrar a paz em tu?"

Respirei fundo. Velha filha-da-puta. Já começa com ofensa.

"Olha, Oneide, Dona Oneide, eu não tenho nada a ver com isso não, só quero ajudar o Seu Dionísio a expulsar o encosto do bar."

Menciono o fato de beber de graça?

Melhor não.

Dona Oneide pega minha mão, joga um pouco de óleo de côco e começa a rezar em línguas.

Então, Dona Oneide, segurando minha mão, começa a tremer e a falar coisa sem sentido, como manda a cartilha dos grandes charlatães do mundo espiritual.

Mas alguma coisa aconteceu, rapaz.

O braço formigante prenuncia a dança do teto. Não sei se foi o calor da sala ou o cheiro das velas. Dona Oneide, caralho, colocou maconha nessas velas?

Nisso, a velha começa a tremer, seus olhos estão revirando. Eita, diacho. Lascou-se a porra toda, a velha vai ter um derrame na minha frente. Seu Dionísio, que merda é essa? O braço tremendo, o cheiro de cabaré, o cheiro de igreja, tudo junto. Meus olhos começam a revirar também.

O desespero bate, já não sentia direito o braço. Não tô em transe, tenho controle de mim. O teto era vermelho, mas também era roxo. E dançava. O cheiro de cabaré-e-igreja. Laura.

Fim.

Dona Oneide largou meu braço. Passaram-se dois minutos ou dez? Sei lá, bicho. Me recomponho, mas Dona Oneide ainda demora um tempo para falar. Depois de respirar fundo três vezes, com os braços agora grudados na mesa, ela disse:

"Seu Zé morreu. Mas quer falar cuncêis. Tem de ser hoje de noitinha, no boteco. Vamos, menino vazio?"

Olhei pro Seu Dionísio. Sinalizei que teríamos que beber umas cervejas, fazendo aquele gesto tosco com a mão. Seu Dionísio entendeu o recado, disse que estava tudo liberado.

Bebida de graça? Brinca sério. Traz a capa, que hoje eu sou herói.

"Para o bar, então!"

Chegou a hora de expulsar o espírito do Zé da Cana do bar, e só quem poderia fazê-lo era eu. Dona Oneide se embrenha no Monzão com a gente. Olhei para Seu Dionísio, olhei para Dona Oneide. Sem querer, imaginei eles se pegando. Ô, merda.

Hora de ir para o Bar do Seu Dionísio, onde a magia acontece. Respirei fundo. O Monzão já ronca, ansioso.

Simbora, maestro.


O Duelo é uma história em cinco partes sobre um fenômeno estranho que acontecia num boteco de interior. Fique atento para os próximos capítulos na Revista Simbiose.

Parte I

Parte II

Parte IV

Parte V


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Natan Andrade | Uma ode ao bom cachaceiro.

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