O Duelo — Parte II

História em cinco partes sobre a dor, o sobrenatural e a cachaça.


Parte II — A Revelação

Ainda que incrédulo, confesso que bateu um comichão no peito danado ao ouvir aquela história. A visita de Seu Dionísio começou estranha, mas tomou forma e agigantou-se quando o velho cantou a pedra de que o mais mítico dos cachaceiros, Zé da Cana, encontrava-se ainda vivo. Mesmo um discreto entusiasta da cachaça animaria-se com tal prognóstico.

Percebendo minha agitação, Seu Dionísio pôs-se a falar.

“Calma lá, filho. Ainda não expliquei direito. Zé de Deus, o Zé da Cana, morreu sim. E foi lá no bar, como a cidade não deixou de notar. Teve corpo, velório e enterro. Você bem sabe.”

Tá, mas então como que tu me fala que o cabôco ainda vive?”

Antes de deixar Seu Dionísio continuar, tratei de buscar uma Claudionor, já meio aberta, na geladeira. Me servi de uma dose, mandei outra pra ele. Pedi que continuasse.

“Meu filho, Zé da Cana era um homem da vida. Poderia até considerar que o cabra era meu chegado, não sabe? Mas foi lá no bar que o coitado passou mal, bateu as botas. O doutor, naquele mesmo dia, disse que era um misto de estafa com ataque cardíaco. Eu não comprei. Sabia que ele tinha morrido de cana. Acontece que, naquela noite, Zé da Cana estava no melhor dos seus dias. Cantava, pediu um Zezé Di Camargo no Jukebox e tudo mais. Mas…o velho exagerou. Secou garrafa de cana e tudo o mais. No fim, eu já cochilava no fundo do bar, assistindo tevê, o que é bem rotineiro, não sabe? Mas Zé continuava lá.”

“Tá, Seu Dionísio. Entendi, mas e aí?”

“Bom, acontece que foi nesse dia que o querido Zé foi dessa pra uma melhor. Mas eu posso jurar, meu rapaz, posso jurar, que escutei ele falando sozinho, ou com alguém que eu até então não sei quem, que ele não ia perder um duelo de cachaça como aquele. Nunca, na vida.”

“Pera aí, tinha mais um bebendo com ele?”

“Não, pô, se bem me lembro, ele bebia sozinho, e na sua bebice deve ter invocado um amigo imaginário, sei lá, mas disse que não ia perder aquela cachaçada. E, como tu sabe, o coitado morreu. Ele perdeu a cachaçada.”

“Bom, uma merda, né. Saquei. Mas você veio até aqui pra chorar as pitangas pelo velho Zé? É só isso?”

“Não, não, tem coisa ainda. Não me apresse não, safado!

Dei um gole na Claudionor, que na limpidez dos seus quarenta e cacetada de álcool conseguiram me acordar, de vez, para a vida e para a história maluca do dono do bar.

“Zé morreu, mas morreu de corpo só. Pode parecer besteira, mas não é não.”

Dessa vez, foi Seu Dionísio quem bebeu da cachaça mineira.

“Desde a morte dele que eu não tenho sossego no bar. É garrafa secando sozinha, copo quebrando do nada e até tremedeira nas mesas.”

Vendo minha cara de cético, Seu Didico já me trucou.

“Não acredita, né? Eu também achei que era besteira da minha cabeça, rapaz. Deitava a cabeça no travesseiro, todo dia, falando para mim mesmo que isso era impressão, que era caso de amizade mal-curada que a passagem do Zé tinha deixado em mim. Mas aí aconteceu um negócio esquisito…”

Sem tempo para minha indagação, Seu Dionísio tira um guardanapo surrado do bolso, cuidadosamente, e passa para mim.

Segurei o artefato em minhas mãos e senti o mais cabuloso dos arrepios na espinha que um ser humano pode sentir. Em letras tortas e garrafais, bem característica do próprio Zé, lia-se claramente:

Não saio enquanto um não me derrubar na cachaça!

O Duelo é uma história em cinco partes sobre um fenômeno estranho que acontecia num boteco de interior. Fique atento para os próximos capítulos na Revista Simbiose.

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V


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Natan Andrade | Uma ode ao bom cachaceiro.

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