O Duelo — Parte I

História em cinco partes sobre a dor, o sobrenatural e a cachaça.


PARTE I — A Visita

Depois de quinze anos de botecagem pesada, seus semelhantes começam a perceber sua propensão ao copo de cana suja. Não que o temido gorfo nunca batesse, ou que falasse aqui o campeão absoluto no temido viradão da morte. Nada disso. O botequeiro dos bons não é atleta de sprint, ele vence é no endurance.

Talvez foi a minha fama de bom de copo (ou meu aprochego em confusão) que me botaram no caminho do Seu Dionísio, dono do barzinho que tinha como qualidade única o litro de cerveja mais barato do meio-norte goiano. Só sei que eu, na minha vagabundice exemplar, repousava incólume ao som de Djavan, às quatro da tarde, quando umas batidas fortes na porta de casa e o som de uma puta cusparada no chão me tiraram do meu conforto.

Com a camisa do Galo e bermuda rasgada, fui atender. Era Seu Dionísio.

“Ô meu rapaz, posso dar uma palavrinha contigo?”

Mas é claro, meu en passant. Seu Dionísio era um velho barrigudo, camisa polo listrada que mal cobria o umbigo, bermudão, meia e chinela. Cabelo e barba branca, como tem que ser. Chamei Seu Didi pra entrar, preparei um café forte, o famoso cura-ressaca, e botei o velho pra resmungar.

Então, rapaz, o pobrema é cabeludo, mas acho que você tem as bola pra resolver”.

Eita. Eita por dois motivos. Primeiro, porque não sei o que seria tão cabuloso assim ao ponto de só eu poder resolver. Segundo, porra, Seu Dionísio, cinco minutos em casa e já tá falando das minhas bolas?

Mesmo ressabiado, pedi pro velho continuar.

“Você se alembra do falecido José de Deus? Bom, meu filho, talvez esse nome fosse só para os mais chegados. Mas com certeza você guardou na memória o nome do Zé da Cana, né?”

Claro. Claro. Zé da Cana foi uma lenda viva. O rei dos botecos. Dizem que foi dele que primeiro surgiu a técnica do duplo-copo (um copo de cachaça e um de cerveja, servidos lado-a-lado na mesma boca), o morteiro (cerveja, cachaça, cerveja) e até mesmo o mítico dentinho (mãos para trás, agarre o copo de cerveja usando apenas os dentes, vire o copo americano o mais rápido possível e retorne o copo à mesa, usando apenas a boca). Zé de Deus, ou melhor, Zé da Cana era uma lenda.

Pena que morreu sob circunstâncias escusas.

Lembro sim, seu Dionísio. O que tem?”

Seu Dionísio levantou, deu uns cinco passos pela casa, com as mãos no bolso, coçou a barba e só então falou.

Zé da Cana, como o pessoal chamava, era bom de copo, obviamente.”

“Sim, eu lembro. Eu vi. Ouvi.”

“Zé da Cana foi meu maior cliente, sabe, rapaz. Mas nunca foi dos tipos bons, daqueles que comem um petisco, que mandam um torresmo pra acompanhar. Não. O Zé vinha, enchia o cu de cerveja barata e cachaça de laranja e ainda pedia pra pendurar. Eu pendurava, né. O cabôco era parceiro, sem contar que, vira e mexe, tinha alguém ali com ele, a sua querida plateia, pra aumentar um pouco o dinheiro pro meu lado. O que eu tô querendo falar, é que valia a pena ter o Zé lá. O meu boteco era o bar de estimação dele, e eu achava bom demais. Nunca reclamei.”

“Sim, sim, lembro bem.”

Pedi um momento pro Seu Dionísio, acendi meu cigarro de palha e mandei o velho dono de bar continuar.

“Então…você sabe que ele morreu, né não?”

Claro que eu sabia. Foi uma puta comoção dentre os pés-rapados da cidade. O velório foi pago a base de troco de pão e cigarro mentolado. A mais baixa boemia da cidade quis prestar suas homenagens ao Zé da Cana, e eu não poderia estar de fora.

Veja bem, Zé da Cana era um ídolo. Um ídolo daqueles malditos, o zagueiro do Goiás que você tem vergonha de admitir que admira. Mas, porra, Zé da Cana nunca se preocupou com ninguém. Não tinha amigos, nem família para se preocupar. O atleta do copo não pode ter distrações. Eu queria ser assim, e, quando ele morreu, fiz questão de contribuir na vaquinha dos trabalhos fúnebres.

Tá, lembro sim, Seu Dionísio. Mas o que é que tem?”

Dei um trago muito maior do que a situação seguinte poderia suportar.

“Bem, e se eu te disser que o danado…não morreu?”

Cof, cof.

“Eita.”


O Duelo é uma história em cinco partes sobre um fenômeno estranho que acontecia num boteco de interior. Fique atento para os próximos capítulos na Revista Simbiose.

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V


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Natan Andrade | Uma ode ao bom cachaceiro.

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