Nudez e moral de condomínio

(Foto por Grey World)

Nenhuma nudez em público será perdoada.

Calor. Muito calor. Saio do banho, decido ficar pelado, vou lavar louça. Tiro o lixo da pia e penso em sair pelado mesmo, até o corredor, para jogá-lo. Já tinha feito isso algumas vezes, nunca tinha dado nada.

Faço.

Parênteses: a regra do lixo no meu prédio é como a de qualquer outro prédio comum: tem uma lata que fica entre as portas que separam o corredor das escadas.

Questão de segundos, prestes a dar o pé para voltar para casa, ouço a vizinha sair. Ela foi mais rápida do que eu. Ainda não tinha me visto, mas me veria se eu atravessasse o corredor de volta para o apartamento. A filha da puta foi como um bote rápido, me encarcerou, me deixou paralisado, sem saber o que fazer. Mais um único segundo e ela abriria a porta do corredor e me veria.

Única opção: descer escada a fora.

Desço dois lances, completamente nu, exceto uma Havaianas nos pés, o pau pra lá e pra cá.

Paro no 12º andar e encosto na porta do corredor. Estou do lado da lata de lixo deste andar.

Silêncio absoluto.

Eu me alivio, respiro, começo a criar coragem para subir novamente. Todo meu instinto entende que eu estou num andar seguro. Estou de costas, pressionado contra a porta, respirando fundo.

Silêncio absoluto.

O silêncio se quebra brutalmente. Ouço a maçaneta, localizada perto da minha lombar, do nada, se abrir. Meu coração dispara de forma violenta. Já não era tempo de mais nada. O zelador, entregando as correspondências, dá de cara com o meu ser despido, de forma que, com o impacto, eu quase caio de costas, em cima dele. Sorrateiro, filho da puta, nem para dar um sinal de barulho. Naquele momento de apavoro, todos sabem bem, a noção de tempo se rompe. Os segundos sofrem uma brusca alteração no seu compasso. E nestes pesados segundos estou eu, com a bunda de fora, de costas para o zelador.

Tomo a única atitude que qualquer ser vivo deste planeta tomaria: saio correndo. Completamente destrambelhado, tosco, tropeço na lata, rolo por cima dela, espalho todo o lixo, deixo um chinelo escapar do pé.

Não sei o que os olhos do zelador veem. Não sei o que a cabeça dele pensa. É uma estátua na minha frente.

Levanto, como uma miserável presa que foge do predador, calço o chinelo e, correndo, pulando quatro degraus a cada passo, subo de volta.

Abro a porta do meu andar, desesperado, sem pensar.

Tarde demais, mais uma vez.

A vizinha, dona Eleonor, 72 anos, que quase havia me flagrado há pouco, conversava à porta de dona Marlene, 68, síndica do prédio. O choque entre nós foi frontal, brutal; a reação de ambas, desoladora e confusa.

Te poupo dos demais detalhes, a não ser o último, quando eu achava que nada mais de repentino poderia acontecer: às minhas costas, novamente, me aparece o zelador.

Claro que ele viria atrás de mim. A desgraça tinha que ser intensa.

Seu Dorival, dona Eleonor e dona Marlene: o que eu fiz dos olhos seus nesta tarde, hein! E eu, o que fui fazer de mim, com a minha ideia imbecil de jogar o lixo pelado, não?!

“Que isso, rapaz, ficou maluco, foi?!”

“Menino, que absurdo é esse? Tenha vergonha, por favor!”

“Aqui é lugar de gente decente e com os parafuso no lugar, viu!”

Nunca vou me esquecer dos sermões.

Volto para casa, visto uma roupa, vou recolher o lixo que eu tinha derrubado no 12º.

Dias depois, recebo multa. Me condenam no valor de R$ 186,00 reais.

Escrevo agora, cada palavra desta história, sentindo a amargura do arrependimento de não ter colocado pelo menos uma cueca.

Nenhuma nudez em público, mesmo que imprevista e acidental, será perdoada.

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