Nem sempre dá para entender

NSDPE — Cap.1: Não deves desesperar

Explico

O desaparecimento de um avião perto da Malásia uniu os países vizinhos e distantes numa busca desesperada. Helicópteros, aeronaves especiais e barcos foram desvendar partes revoltas dos oceanos Índico e Pacífico, locais que até experientes comandantes de resistentes navios cargueiros temem.

As buscas não foram um sucesso, e para piorar um desses barcos não voltou. Sua missão era vasculhar o corredor imaginário que fica entre a Micronésia e a Melanésia, dois imensos conjuntos de ilhas que, junto com a Polinésia, formam alguns dos locais mais paradisíacos e misteriosos do planeta.

Aquele foi um dos caminhos que o ser humano migrou da Ásia para a América do Sul, usando embarcações. No meio deste caminho estava Galápagos, a intocada ilha que abriga animais tão específicos que alguns só existem lá. São espécies que estão afastadas de tudo, protegidas dos predadores que não são eles mesmos.

Mas se animais conseguiram ser tão inteligentes a ponto de se afastarem de todo o mundo poluído e dos grandes predadores, será que nenhum humano conseguiu o mesmo? Será que por séculos ignoramos a existência de uma ilha no meio do Oceano Pacífico onde vive uma comunidade à parte de tudo?

Sim, foi exatamente isso que a equipe de resgates encontrou. Uma comunidade ao mesmo tempo avançada e retrógrada. Que criou equipamentos muito mais modernos do que o resto do mundo conhece, mas que também nunca voou. Pessoas cuja aparência traria a necessidade da criação de uma nova raça. Não eram negros, brancos, índios ou asiáticos. Eles simplesmente eram eles, em sua selvageria civilizada que os exploradores de ocasião entraram em contato por um mero acaso.

Levado por um mar revolto, tempestades e uma desorientação incomum do satélite o moderno navio holandês do modelo Fugro driblou sem querer a rota proibida do antigo navegador chinês Xu Fu e acabou levado até as rochas da ilha desconhecida. Recebidos pelos habitantes locais com curiosidade e uma velada simpatia à distância, os holandeses retornavam ao inutilizado barco de vez em quando para tentar algum contato com o mundo que conheciam, mas aquele pequeno trecho do planeta era um ponto cego até mesmo de satélites.

Os relatos que estão aqui foram feitos em uma inteligente administração de baterias dos equipamentos disponíveis no navio. De alguma forma os navegadores sabiam que seus relatos eram mais importantes que uma tentativa de comunicação. Entenderam que, ainda em nosso tempo, não conhecemos totalmente nosso planeta e suas possibilidade, e que relatar o que viam e conheciam poderia ser essencial para o futuro espécie humana ou uma ilusão.

A única coisa que não entenderam foi que o que descobriam já era em si parte desse futuro. Um exemplo claro do que o ser humano pode fazer de melhor e de pior ao mesmo tempo, quando a ganância encontra a ciência. Quando o egoísmo encontra a tecnologia.

Capítulo 1 — Não deves desesperar

“Seria algo desesperador, se caminhasses numa planície, com a agradável sensação de estar a avançar, quando na verdade retrocedias. Como porém escalavas uma encosta abrupta, bastante inclinada, coforme por ti mesmo vista de baixo, a causa do retrocesso bem poderia ser devido à disposição do terreno. Não deves desesperar.” — Franz Kafka


Música1 — Nem sempre dá para entender


Quando o barco atingiu as pedras já era possível ver, mesmo que de longe, algumas pessoas numa praia tentando entender o que acontecia. Os três tripulantes holandeses não se machucaram muito. Sofreram com o impacto, mas isso não gerou nada muito sério além de dores musculares.

Por reflexo, tentaram algum contato no rádio para avisar onde estavam. Checaram os sinais, mas tudo era estática naquele local. O GPS dava um recado de que estava sem conexão e então, tudo o que eles tinham era a janela do navio.

Os três levantaram devagar a cabeça e avistaram a pequena praia a cerca de 30 metros. Umas seis, no máximo dez pessoas podiam ser vistas lá com expressões de curiosidade.

- O que é isto? O planeta dos macacos? — perguntou o comandante Ferrus

Os marinheiros Camperine e Watt riram alto da comparação, mas Ferrus não estava brincando.

- É sério! Olhem aquelas pessoas! Elas são verdes!

Seus companheiros foram novamente até a janela e prestaram atenção no que o comandante disse. Sim, elas eram verdes, mas não eram anfíbios humanoides e nem primatas evoluídos. Eram pessoas normais com a pele esverdeada.

- Que porra é essa?! — se assustou Watt

- Nós temos armas? — perguntou Camperine

- Só sinalizadores, mas vamos pensar. Eles não parecem tão agressivos. Se fossem selvagens já teriam feito alguma coisa — advertiu o chefe

Enquanto bolavam algum plano, tentavam novamente contato, mas os sinais permaneciam na mesma. Ferrus foi pegar seu notebook para ver se conseguia algum tipo de conexão e por incrível que pareça tinha uma rede disponível.

- Ahhh! Hahaha! Tem wi-fi!

- O que?! Deixe-me ver! — se espantou Watt

- Watt, você que é bom nisso. Tente se conectar!

Apesar das tentativas, o sistema nem mesmo pediu algum tipo de senha. Ele simplesmente não conectava. Os três passaram alguns minutos ali como se fosse sua última esperança, mas o que aconteceu na verdade é que o sinal era apenas similar ao de um wi-fi. Ele era detectado pelo notebook, mas não decodificado.

Quando olharam novamente pela janela, as pessoas tinham sumido. A pequena praia estava totalmente vazia e não havia nenhum sinal de vida por ali exceto as aves.

Ferrus, Camperine e Watt se olharam e pela primeira vez tiveram medo de verdade.