Nem sempre dá pra entender

NSDPE — 7.Lançando dados

“Como o universo continua lançando dados para ver o que acontece a seguir, ele não tem apenas uma única história, como poderíamos pensar.”- Stephen Hawking, O universo numa casca de noz


Música 2: Dados


“Sim, tem razão, as distrações comandam o mundo”, falava Watt ao dormir observado por seus companheiros. “É, eu também te amo”, divagou perante as risadas de Camperine e Ferrus.

Era madrugada da noite após o encontro romântico que ele teve com a nativa e que decidiu não falar muito a respeito aos amigos, mesmo que estes tenham feito várias perguntas. Algumas delas, no entanto, pareciam ser respondidas ali durante o sonho de Watt. Em alguns momentos os dois observadores se entreolhavam com uma certa dúvida se o sonho era real.

“Eu acho que temos que nos afastar do desarranjo. Está tudo muito desfocado. Você tem razão, o retorno virá pelos indefesos fujões. Não, nada foi extinto, foi apenas adaptado a um novo ambiente”. Frases como estas deixavam os dois sem palavras. Afinal, como Watt, um sujeito adepto de hábitos rústicos, poderia filosofar tanto?

“Ele trouxe o ROM? Isso mudou tudo e explica as distrações”.

- Peraí. ROM? Read Only Memory? Tipo CD-ROM? — cochichou Ferrus

- Que nerd você! Sei lá se é isso. — respondeu Camperine

- Deram alguma droga para Watt. Não é possível.

Nesse momento Watt começou a cochichar também. E suas falas ficaram inaudíveis. Ele parecia manter uma conversa natural com alguém, mas o mais intrigante eram os temas. Filosofias profundas sobre comunicação, identidade moral e conhecimento semiótico eram assuntos abordados com ideais precisos. Ou Watt era um espião infiltrado ou nada fazia sentido.

A verdade é que ele estava conversando com sua amiga nativa. O contato com ela o permitiu entrar numa assimilação de conhecimentos que ela tinha. Eles estabeleceram uma espécie de rede sem fio através de seus cérebros e compartilharam tudo o que tinham dentro do “HD”. No momento que era observado pelos amigos, Watt estava no meio de uma espécie de chat enquanto dormia, porque esse tipo de sistema não desliga. O sistema nervoso autônomo dava conta de manter os dados funcionando e circulando durante o sono.

Não, não foi instalado nenhum microchip em seu corpo. Ele passou a desenvolver isso através de uma reação química que injetaram nele. Uma espécie de vacina desenvolvida na década de 1970, quando um cientista alemão vislumbrou a existência dessa ilha e foi procura-la com um programador de sistemas inglês e um caçador de riquezas brasileiro.

Os três se conheceram em Bruxelas, anos antes, bêbados em um bar. Cada um contou sua história e os três decidiram embarcar na ideia do alemão que queria descobrir um povo intocado. O inglês queria fazer experimentos com suas siglas palíndromas: ANS-SNA. Respectivamente em inglês: Autonomic Nervous System e Systems Networking Architecture. Bem, a verdade é que o alemão debatia com o inglês quando o brasileiro sentou embriagado à mesa com eles. Como isso era, de certa forma, normal naquele lugar, os dois continuaram o papo. Só não contavam que o terceiro ouvinte faria tanta diferença no rumo da história.