Noites profanas

(Imagem: Hope Gangloff)

No crepúsculo me vê na sombra do corpo dela, anatômica, atômica. Mas o sabor que ele encontra não é ácido. Nem se satisfaz com o cheiro que inala tão fácil pelo perfume caro. Eu era o aroma barato que ele negava usar, a maciez que o fazia enrijecer com rapidez. Curta, grossa, bossa nova. Rosa, roxo, riso solto, cabelo no rosto na hora de dormir.

Ele procurava a mim enquanto se saciava nela, na vontade de me ter, se agarrando aos fios invisíveis do querer que se enrolaram pelos dedos lisos, mas precisos. Que sabiam segurar meu corpo escorregadio e me apoiar em seu colo. Me sentando em seu trono, montando em seu ego e fazendo-se cego, tateando o que sabia de cor, mas redescobria a cada dia. Eu era a agonia e a pressa, a festa e o funeral. Era em mim que ele repousava e fazia morada com suas verdades falsas, suas palavras baratas, seu amor de aluguel.

Me materializava nas superfícies palpáveis, nas senhas, nas sédulas e nas frases ensaiadas as pressas, por não saber me enxergar com o coração.

Mais uma noite chega, mais uma mulher se deita no que ele cria, na fantasia que armou como cabana de criança que se esconde dos pais, dos demais, de si mesmo. Mais uma noite que chama pelo nome de outra, através de outra e de outra. Mais uma moça se ajeita em seu peito e imagina coisas tolas, não é a primeira e com certeza não a última. Durma bem.


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