Somos cópias mal feitas, e nos achamos escritores

Enquanto você se acha o bom, Kafka se achava horrível.

É aquele desejo por 15 minutos de fama que move os ratos do século presente em busca de coisas que não fazem o menor sentido no mundo das ideias. Não é a depressão que me consome, é a falta de conteúdo em vida.

Pouco depois de inaugurada a era pós-moderna o ser humano começou uma corrida incessante pela imagem perfeita que será recebida pela sociedade — na verdade desconfio que em 1826 quando Joseph Nicéphore conseguiu registrar a primeira fotografia, o mundo jamais seria o mesmo. A ideia de fixação do ‘momento’ para a posteridade nos alucinou, lentamente criamos o conceito de eternização de um legado através de imagens, mesmo que esse legado dure apenas alguns minutos dentro do espetáculo que participamos. O reality show da vida real.

Aqueles que são alienados, assim são porque são; estão fadados ao fracasso intelectual, entretanto são mais felizes — por razões óbvias não pretendo explicar aqui — na vida. Não possuem ambições maiores do que aquelas que estão em frente aos seus umbigos e à um palmo do seus olhos, contudo as almas pensantes dessa era convivem com o conflito da criação confinada em cantos remotos do planeta versus a necessidade holofótica de amostragem da criação para o mundo exterior. Infelizmente (ou felizmente) o mundo que habitamos — o mundo líquido — nem todos tem vozes, e muitas vezes as vozes ouvidas pela “Sociedade do Espetáculo” são as vozes dos idiotas. Vide Umberto Eco.

Guy Debord como um verdadeiro profeta escreveu isso no ano de 1967 quando denunciou a perda da qualidade intelectual em todos os níveis da linguagem para a passagem de imagens, conceitos e objetos que louvam condutas que a sociedade ávida por espetáculo quer consumir. Inspirado por Feuerbach cravou o pensamento da nossa era: “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo que era vivido, hoje se esvai na fumaça da representação”.

Fantasio o que se passava no íntimo de Franz Kafka — um dos maiores escritores do século 20 — que concebeu romances responsáveis por inaugurar uma nova era na literatura moderna e no pensamento existencialista, mas que em vida não tinha pretensões de alçar fama com suas obras, pois na verdade sentia vergonha e repulsa da sua escrita. Na vaerdade só conhecemos Kafka como ele é pela benevolência de Max Brod que ignorou o pedido de Franz, que desejava a queima total dos seus livros inacabados.

Me assombro com a ideia vaga e ridícula que permeia o imaginário criativo dos escritores da presente data; criam e afirmam que são pequenos gênios carecendo de um punhado de atenção e um pouco de sorte para conquistar os 15 minutos de fama. Escrevem aquilo que vende, criam aquilo que é cool. No final das contas é mais do mesmo.

Hoje é a vez dos viciados em holofotes. Ainda não aprendemos que o escritor escreve pela alma, pela dor de encontrar o tempo verbal correto no texto, pela poesia e agonia de tentar (e errar) descrever a cosmovisão pelo amontoado de letras. Pouco importa se o leitor irá jogar flores sobre o texto, o escritor não tem público alvo, escritor não tem destino. Escritor tem loucura, tem demência e um emaranhado de coisas que no fim ele chama de texto. Jorge Luis Borges dizia que o livro é a extensão da memória e da imaginação. Tudo que passar dessa descrição seja anátema.

Partícipes intervenientes de um espetáculo que não pode ser facilmente compreendido, nos apegamos na superficialidade dos nossos “textinhos” virais de internet ou uma difusão de imagens computadorizadas. Nosso circo de horrores artístico é nada mais nada menos que uma visão cristalizada e egocêntrica do mundo, cada qual enxergando um pedaço de realidade de uma forma distinta, plagiando tudo aquilo que um dia já foi dito de maneira mais requintada. Dúvidas? Consulte a Literatura Clássica mais perto de você.

Copiamos os grandes sem profundidade para entendê-los e sem vontade de lê-los.

Manifesto por um mundo com menos best-sellers. Por um mundo que os holofotes sejam apenas lâmpadas que alumiam as escrivaninhas dos escritores anônimos. Viva a arte pela arte. Só isso!

Reza lenda que Nietzsche no auge da sua loucura observou sua irmã folheando uns livros e balbuciou: “dizem que eu também escrevi uns bons livros.”

Paulo Sales ©