Nave Espacial Nº 01

Para onde vamos, vamos sentir saudade?

Um dia, a nave vai parar.

As turbinas falharão, o suporte de vida se extinguirá, a lotação vai explodir. Os capitães, desesperados pelo comando do barquinho de papel, não notarão que a jornada precisa de compreensão, não de liderança.

Um dia, e espero que demore, nossa nave falha e pequena sucumbirá. As fontes de energia cessarão, o medo será maior. O escuro estará tão próximo que será a única coisa a se admirar. O calor, ou o frio, tomarão conta das câmaras dessa mesma nave, irradiando suas extremidades com a mesma velocidade do discurso vazio que nos espera lá fora.

Mas quem espera um final trágico, peço que aguarde, por favor. Há nessa nave esperança. Com ela, poderemos construir nosso bote salva-vidas fundamental, aquele que vai nos guiar pelo mar negro e gélido, através de pulsares e quasares, em busca de uma nave novinha em folha, pronta para receber sua estúpida tripulação.

Um dia, espero que não demore, estaremos espalhados em dezenas, centenas, milhões de outras naves, cada uma com suas diferenças. Talvez, encontremos outras naves com outros tripulantes, piratas do espaço, homenzinhos verdes, que irão seguir conosco ou nos afundar. E outras naves virão, e outras irão perecer.

Assim, com a humanidade espalhada aos milhões, com vidas infinitamente longas, com novos e velhos problemas, uma questão restará. Um dia, na nave de número cem mil, um homem vê uma holografia da Terra. A nossa primeira nave, a nossa primeira casinha.

Então, ele vai olhar para o combalido planetinha. Ele verá o Cristo Redentor e um show de rock, a tundra canadense, a muralha da China e o deserto do Saara. Estupefato, ele vai assistir um jogo de futebol, a segunda guerra mundial, o beijo de dois amantes. Ele vai ver tudo isso e, como um adolescente escutando discos dos anos 70, soltará um suspiro interestelar e vai morrer de saudade daquilo que nunca viveu.


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Natan Andrade de Medeiros | Pensando sobre o espaço.

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