Cão que ladra

Noites sem lua, cartas rasgadas e escritores analfabetos

Photo by Glenn Carstens-Peters

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Protelei a escrita desse texto. Deixei-o engavetado dias e dias. Para o escritor, nada dói mais que deixar escaparem os momentos de inspiração, os sussurros literários que nossas mentes nos proporcionam e, mesmo assim, calei-os quando mencionavam o nome dela. Procrastinei cada segundo que pude, para não me debruçar novamente sobre esse assunto. Resguardei-me como um cão medroso. Lati de longe para os carteiros na rua, rasguei as cartas que eles me deixavam sem nem dar-me conta que não mais entendia o que nelas estava escrito.

Trabalhar com criatividade é, muitas vezes, saber lidar com a solidão. Escrever transcende o mero ofício de redator — é saber dar alma às palavras, deixá-las assinadas cada uma como uma obra singular e aprender a não sentir falta dos pedaços seus que ficam nos textos. O escritor deprimido é iletrado; falta-lhe a verve para preencher a xícara de café com poesia, não com o líquido negro que agora o corrói por dentro.

Por muito tempo, perdi a leitura, o sorriso, o canto, o apego às noites de lua cheia. Perdi-me de dentro pra fora, como um cadáver descosturado. Perdi meus versos, minha rima, minha métrica de vida — pois filosofia escrita para escritor tem que ser com poesia, não basta a mensagem seca e pragmática. Desaprendi a ler a mim mesmo, negligenciado pelo desamparo já recorrente das noites sem luz.

A depressão é analfabeta. Nossos encontros foram puramente carnais, salv’engano algumas trocas de mensagens alcoolizadas; salv’engano algumas cartas depravadas; salv’engano os berros pra dentro que ninguém nunca retornava. Vez ou outra, punha o jantar e sentava à mesa para fazer- me companhia, mesmo após aquele encontro trágico; mesmo quando não havia ninguém do outro lado da mesa; mesmo quando rasguei suas cartas incompreensíveis.

E então, aprendi a ler.

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"somos os carros parados que tangem a estrada cortante do destino."

Acho que foi o constante medo da perda. Talvez fosse essa insegurança tremenda para com outros que ficara incumbida da minha personalidade inconstante e meus desejos resguardados.

E então, eu ia incorporando — como que ela chamava mesmo? Absorvendo. Eu ‘absorvia’ — , esponja de sentimentos que fui durante minha existência.

Somos o muro pichado por aqueles que entram em nossas vidas, mas principalmente pelos que saem.

A escultura límpida que vai aos poucos sujando-se de poeira e lama, desgarrando pedaços e reconstruindo-se aos poucos. Somos a união — em nunca perfeita harmonia — das experiências alheias concomitantes a nossos trajetos, somos os carros parados que tangem a estrada cortante do destino.

E então, aprendi a ser.

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Pensei que tu irias me consertar. Que a felicidade, mesmo muitas vezes fervendo, sairia finalmente da chaleira e que todo esse calor ía lavar-me alma e corpo. Achei, em um pingo de segundo mais curto que os incalculáveis, a desilusão sentida tempos atrás, transformada nas mordidas escondidas por dentre a gola das camisas, seria um bom sinal — que porque era ela, porque era eu; bastava. Nem Chico me acudira quando acordar não fora felicidade instantânea e ainda faltava as minhas brechas à serem preenchidas por algum “sei lá o que”.

Então foi hora da sobriedade gélida. Transformar história em estória é, ao mesmo que limpar o descarrego de nimbus nos neurônios, fazer aceitar que tudo é passado desde o ponto final; que o que escrevo não volta atrás e ser dor ou não basta agora como questão de opinião de outrem.

Desejei do fundo de meu coração a presença eterna de meu teclado, das opções de texto editável, nesse capa-dura de única publicação que se tornou Minha Vida. Deixei ao infinitivo — aquele que tudo sabe com a conjugação regular e cadenciada que momentos tais quais estes pedem — o poder da decisão e inserção de incógnitas, antes escondidas, em período.

E então, abri o livro e, ao ser novamente e somente ela e eu os objectos do ‘porque’, pus-me a viver.