Já fui Rei Por Um Dia

Um breve relato dos meus 15 minutos de fama.

Como a maioria das pessoas periféricas deste país, estudei em escola pública. Pra quem nunca passou pelo sistema público de ensino, aqui está uma síntese como funciona o submundo da organização escolar feita pelos alunos da rede pública. Naquele ambiente escolar não existia muita cordialidade, nem técnicas pedagógicas para evitar bulling, brigas ou conflitos — em suma, a lei do mais forte sempre imperou. A divisão do futebol sempre seguiu as mesmas regras, se você fosse bom de bola era escolhido nos primeiros times, senão, sentava e ficava esperando os times principais cansarem pra saírem, assim o time de segundo escalão aproveitava os últimos minutos da quadra.

No campo da paquera estudantil eu particularmente era um fracasso total. Beleza nunca foi meu forte, pelo menos a beleza que encantava as meninas. Era classificado como o inteligente da classe e um aluno aplicado, porém longe de ser nerd, mas essa minha condição não era válida para ser convidado para a roda dos populares. Eu era mais da ala sem sal.

Naqueles anos quando um curso de informática ainda era requisito básico para qualquer estudante, eu sonhava em fazer um, mas era relativamente caro demais para qualquer estudante de baixa renda, inclusive pra mim. Até que aquela escola resolveu promover um concurso de redação para escolher um aluno dentre todos os anos e períodos para ganhar um curso integral de informática. Óbvio que a maioria estava empolgada pelo prêmio, pois não era toda hora que uma benevolência tão grande pintava por aqueles lados. Lembro-me que o tema daquela redação era “O que você faria se fosse presidente do Brasil por um dia”, lembro-me também da destreza que escrevi sobre a brutalidade que imperava nas classes sociais mais abastadas, sobre a dura realidade escolar enfrentada nas periferias, e sobre mais um monte de problemas que sempre foram latentes aos meus olhos. Saí daquela sala feliz em poder escrever um texto bem elaborado. Acredito que ali foi um dos primeiros lampejos como escritor ou pelo menos de alguém inconformado com o sistema.

Passaram-se alguns dias até chegar o resultado final da redação ganhadora, minha ambição era mínima, pois nem passava pela minha cabeça que eu haveria uma chance em meio a tantos alunos daquela escola. Um belo dia chegando à escola estava lá um monumento em homenagem à minha pessoa, pra mim era quase uma escultura de Michelangelo em pleno pátio escolar, um totem ao sucesso e ao brilhantismo de um aluno aplicado — na verdade era só uma faixa plástica com o meu nome em letras garrafais e uma foto com os dizeres “Parabéns ao ganhador do primeiro concurso de redação patrocinado pela Woody Informática”. Vários professores vieram me parabenizar pelo texto e me indagavam aonde eu havia aprendido escrever daquele jeito, e como adquiri um senso crítico apurado para falar sobre política com tão pouca idade. Meus amigos de classe olhavam pra mim com aquela ponta de admiração que ainda não sabiam expressar e meu nome foi comentado pelos corredores daquela escola naquele dia.

Aquele dia foi mágico!

Não ganhei muita coisa além daquele curso e daquela faixa, mas aprendi que colocar palavras certas no texto certo pode te fazer muito feliz, nem que seja por um dia.

Paulo Sales ©

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