Gozo profundo, o sopro da vida

(Photo by Clayton Cubitt)

Fotografia que só meus olhos veem: os braços dela forçando o colchão da cama, unhas que quase rasgam o lençol, os olhos virando de delírio, boca febril, órgãos em chamas.

O frêmito brutal: corpo e espírito suspensos no ar, pesando menos que grama, o mundo tremendo às minhas costas, sacudindo à minha frente, ela com os olhos para o teto e o teto girando para ela; coração em bombardeio, uma sucessão de fogos de artifício, curto circuito correndo das solas dos pés, suavemente descalços, ao tampão da cabeça, incandescente; por fim, os ouvidos tomados pela excelente canção, a canção da dança: cada músculo do corpo ao toque de piano, a boca babando, tremedeira geral, depois pernas anestesiadas. Gozo profundo, o sopro da vida.

Deito a cabeça no travesseiro, cruzo minhas pernas na dela, testa com testa, olhos nos olhos, ainda suspiro, e uma espontânea troca de sorrisos, comunicando amor e bênção. Simpatia.

Suspiro com leveza e graça. Volto aos poucos, revigorado, muita energia. Todo o corpo se restabelece, liso como papel, leve como balão, alguma graça divina pairando sobre os tranquilos pensamentos. Os sons de água; a sensação total de ser água leve e cristalina correndo em bica, sobre pedra de limo, na velocidade mansa das fontes.

Viver, nem que apenas por meia hora do dia, pelo espírito de um dançarino.