Fumaça

Das coisas que queremos e não sabemos porque.

Nosso cérebro é uma maquina falha. Veja bem, uma inteligência artificial sabe o que deve fazer. Seus circuitos lógicos mandam o sinal que é interpretado sem distrações e a tarefa está lá, concluída, no melhor dos resultados. Mas a mente humana é uma criança que mal aprendeu a andar e ainda se embaralha nas suas próprias pernas.

Wanessa estava há dois meses na Estação Lunar Nº02, onde ficaria por pelo menos mais quatro, até que seu papel naquela missão energética estivesse concluído. Mas há coisas que não se ensinam nem na escola de engenharia, nem no treinamento anterior a missão. São coisas pequenas, mas que colocam qualquer ser humano de carne, osso e pensamentos nos seus joelhos, implorando para estar de volta ao seu estado mais primal.

A engenheira está acordada na cama, em sua pequena divisão que chamaram de quarto. Sabia que em seis horas teria de estar acordada, descansada e disposta para os compromissos do dia seguinte, mas sua mente varria, nesse momento, os cantos mais improváveis do universo a sua volta. Enquanto se remexia na cama, sua imaginação nebulosa só martelava uma coisa, como aquele spam que invade os eletrônicos vez ou outra.

Fumaça.

Ela havia fumado poucas vezes nos seus trinta e poucos anos de vida. Poderia contar nos dedos as escapadelas na faculdade que dera para fumar tabaco com os amigos. Mas o estalo foi mais forte do que ela pudera evitar. Sem pensar mais nisso, ela havia decidido: queria muito um cigarro.

Nas Estações, por motivos óbvios, era impossível fumar. Tudo ali havia sido cuidadosamente projetado pensando nas missões energéticas, de modo que a combinação de fogo e fumaça poderia evocar uma pequena tragédia. Hora de desistir e tomar uma água.

O cérebro humano tem dessas mesmo. Você sabia que, às vezes, sua fome é, na verdade, seu corpo pedindo água? Pois é.

Wanessa levanta-se e vai buscar um copo d’água na copa, perto do seu compartimento. A meia luz do lugar revela que Douglas, um dos recrutas que fora com ela, ainda estava acordado.

“Acordada? Também não consegui dormir. Um ano de treinamento e ainda não consigo controlar o sono”.

Enquanto serve seu copo, Wanessa decide estender a conversa.

“Cara, eu durmo que nem uma pedra. Sem as missões, acho que consideraria isso aqui meu SPA pessoal. Hehe.”

“Então por que tá acordada?”

Outro estalo. O cérebro dela, mais precisamente a região do córtex, talvez estivesse confundindo-se com outra região qualquer. Douglas era um cara no alto dos seus quarenta anos, idade que mexia com a cabeça de trinta e poucos de Wanessa. Vai ver não era água, nem cigarro. Vai ver, era sexo. Ela não transava há, o quê, quatro, seis meses? Bem, talvez, a vontade de fumar um cigarro fosse o gatilho impreciso e imbecil da sua mente para avisar o restante do corpo que ela precisava descarregar alguma tensão sexual. Talvez.

Wanessa sentou-se a mesa, perto do astronauta. Ele tomava um shake proteico. Ela pediu um pouco. Alisou o canudinho. Ah, os projetistas não sabiam o poder que a combinação entre os dedos e o canudo poderiam ter.

O papo passou de trabalho para hobbies. De hobbies para sonhos. De sonhos para desejo. E, como qualquer conversa entre duas pessoas que poderiam sentir um mínimo de atração entre si numa base lunar, o papo foi de desejo para sexo.

Não precisou muito para rolar um beijo. Menos ainda para rolar mais.

Acomodaram-se no minúsculo quarto de Douglas. Transar no espaço poderia parecer sublime, mas nunca fora tão carnal para ela. Suaram, mesmo no climatizador intenso da Estação. Antes de pensar se foi tão bom pra ele quanto para ela, Wanessa começa a calcular a estranheza da situação a partir dali.

O cérebro humano é lento. Quando a adrenalina volta-se para a libido, inexistente para as máquinas, deixamos de pensar sobre questões básicas da sobrevivência, como, por exemplo: Como vou passar mais quatro meses nessa estaçãozinha olhando para a cara desse homem com o qual eu acabei de trepar?

Seus cálculos de convivência dançavam atrasados na sua cabeça, embalados pelo ronco do parceiro. Com um riso de canto de boca, evidenciando o desespero que prenuncia a insônia, Wanessa entende, enfim.

Seu cérebro enganou-a mais uma vez. Ela não queria transar. Ela queria um cigarro.


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Natan Andrade | Drama espacial, de novo? Sim.

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