Folhas em branco

Bem-casados, estilística e sangue

Para ler ouvindo

Lembro da primeira vez que senti teu corpo em mim.

Quis morrer e reviver, para do nascimento vir cada segundo novamente de primeiro beijo, de primeiro toque, de primeiro encontro de cheiros.

A morte sempre foi-me parceira de bar. Dessas de sentar junto por longas horas após o expediente cansativo, amiga vista como irmã — jamais nada além, visto e posto as condições de nosso relacionamento.

Quis, ‘inda por cima, reaprender estilística — para lhe escrever e descrever. Não fazer rima bonita, para não roubar de ti a beleza só tua. Nem escolher frases inexoráveis ou palavras compridas, pois essas eram anos-luz acima de minha mente, e talvez roubassem-te de mim também; e então a literatura por inteira brigaria por tua beleza, que já não seria bela sem teu corpo sequelado, em meio a esse ringue de letras.

Quis reescrever estes parágrafos de forma mais bela e menos confusa, fazendo talvez jus aos próximos, que prometi a mim mesmo não ser desleixado com estética, já que escrevo ‘ti.


Amar foi-me o exercício mais árduo e o cosmético mais eficaz que jamais pratiquei ou me utilizei. Ópio do mais puro, usei-o a ponto de overdose — queimei as narinas e veias que ainda sangravam dos socos levados por tuas palavras brancas.

O 'Não' é tão duro que envelhece as relações. Vai cortando os futuros como câncer corta a vida. Vai picando o fumo lentamente. Vai devorando a mente com seriedade, rija para com a pressa exercida pelas mágoas.


Nunca quis nada branco em minha vida pelo medo das coisas mancharem. Nunca escolhi o celular branco por medo da vida marcá-lo a ponto de apodrecerem as paredes e capas.

Nunca gostei de tuas palavras sem açúcar, mesmo após os quilos de chocolate que ganhastes em teu aniversário ou das trufas divididas ou do fondue sem glúten pelo medo da diabetes ou por continuarmos comendo bem-casados mesmo após o fim da festa.

Nunca quis o branco pelo medo de ter de preenche- los comigo mesmo, e tive medo maior da vida escolher preenchê-los sem minha assinatura.

No fim, tive medo de perder o direito de ser livre, branco, sujo — chorei para molhar as folhas defasadas, bagunçar novamente as palavras.

No fim, sentei-me em frente ao papel novo, e assoei o sangue que as palavras antigas deixaram-me no nariz — chorei por que lembrei da primeira vez que te senti, chorei porque lembrei de teu corpo já sem mim.


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