Fim de Relacionamento

E o que vem depois disso.

Se eu pudesse dar um conselho, só um, mas que se agarrasse às bordas do infinito e durasse por toda a história da humanidade, ele seria: Não mande indiretas.

Elas são a maçã podre da nossa história, aquilo que desperta o que de mais vil há em nós. Mas, calma, deixa eu explicar porque.

Fim de relacionamento é uma merda, todo mundo sabe. Mas o fim da união chamegada das almas fica mesmo um cu quando alguma das partes insiste em abusar do poder das mídias sociais.

“Quem passa e não dá nem boa noite, já passou.”

É ou não é pra ficar desgraçado da cabeça? Acabou, vira a página. Porém, mais do que esse tuíte safado, o que mais me enerva nesse fim de relacionamento é a cara de pau de quem profere tal rebosteio.

Eu sei que o dedo coça, eu sei. Mas qual ser humano evoluído não se possibilita um pingo de razão a ponto de sentir-se plenamente realizado com uma merda de uma indireta? Porra.

Terminamos tem uns quatro meses. No primeiro mês, eu entendi. Era recente, estávamos nos acostumando. Mas foi a timeline começar a rolar que eu entendi o porquê da conclusa separação. A mina não se aguenta, tem que mandar indireta.

Ah, e antes das pedras voarem, deixa eu me me explicar: ela não reclama de um mau namorado que fui, nada disso. A fúria nos teclados começou depois que tudo terminou, talvez uma tentativa desesperada de mostrar que ela estava na melhor, e eu, na pior.

“Mas o que é mais engraçado é que…”

Gente. Eu não fiz nada.

Tá bom, eu fiz uma coisa sim.

Ontem estávamos na mesma festa, a mesma que eu evitei por uns dois meses só para não encontrá-la. Mas esse dia eu fui. Cerveja vai, cachaça vem. Eu, na minha vã esperança, achei que aquela noite ela não estaria lá. Não sei bem se foi o snap que eu mandei ou puro instinto dela, mas a danada resolveu ir também. Linda.

Ser humano falho que sou, resolvi simplesmente ficar noutro canto da festa. Não cumprimentei. Só fiquei na minha. Relax. É pecado?

“Quem por tanto fiz, hoje tanto faz.”

A indireta é o último refúgio dos corações amargurados. Eu sei. E por isso mesmo, fiquei numa boa. Não respondi as indiretas dessa segunda de manhã pós-festa. Fiquei na minha. Vida que segue.


Cinco meses. É o tempo em que o pós-namoro deveria se estabilizar. Para alguns sim, mas para o velho Social Media aqui, nem tanto. Cheguei na agência e a vontade era de morrer. A ressaca de cachaça, misturada com o rancor do final de semana, não deixaram de me consumir um segundo sequer.

Sábado passado foi o dia em que cavei pra cima e achei o fundo do poço. A mesma balada, as mesmas pessoas. Mas esses cinco meses de solteiro me mostraram a falta que o combo seriado-e-cobertor me fazem. Sábado, nessa festa, foi aqueles dias em que, do nada, você não escuta barulho algum das caixas de som. Você olha para os rostos borrados, para as garrafas de vodka e, no lugar do tuntstuns, você escuta um silêncio infernal, acompanhado da sua consciência falando com você.

“Tu é um merda.”

Nessa hora, o destino mexe seus pauzinhos. Uns dois casais se afastam no meio da boate e lá está ela. Porra, ela tá nos amassos com outro cara. Porra. Na saída, ela me vê, eu desvio o olhar, com um misto de vergonha e de vontade de fingir que eu não estou nem aí.

Mas a segunda tá aqui, a agência tá fervendo e tem muito post pra mandar. Eu estava disposto a esquecer, a me afogar na cachaça e começar o segundo tempo. Eu juro. Mas foi rolar a timeline e a tremedeira toma conta.

“Haha, nem olhar na cara olha. Um pouco de educação faz bem, sabia?”

Não deu. Não, não. Que ódio. Agora vai. Agora. vai.

“Pra quem falava que não tava nem aí, quatro meses falando BOSTA é muito tempo né?”

Indireta enviada.

De imediato, um quentinho gostoso no coração. Porra, esse negócio de indireta é bom mesmo. Alivia mais que cigarro, desce mais suave que pinga envelhecida em umburana. Que sensação deliciosa, cara.

Fecho os olhos e curto o pós-coito do ego. A melhor sensação do último mês.

Durou um minuto.

Bastou abrir os olhos para a verdade me encarar de volta. Timeline errada. Postei a indireta não no meu perfil, mas no do cliente.

Apago o tuíte, mas os arautos da graça não descansam. Não na internet. Tarde demais. Um vacilo, cem prints.

Abro uma aba no google: “Como fazer um nó de forca”.

Crianças, digam não às indiretas.


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Natan Andrade |Com medo de postar em página alheia.

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