Duas conduções e 15 minutos andando pra chegar na firma, todo dia.

Eu era Social Media da Wayne Enterprises

Entre um post e outro, a verdade sobre o homem-morcego.

Eu era social media da Wayne Enterprises. Mas não era daqueles bons não, fazia uns memes sobre a cor do vestido, botava um bebezinho comemorando a sexta-feira e mandava aquela força pra rapaziada do escritório quando era segunda (segunda-feira é fogo).

Quase nunca dava pra ver o “Seu” Bruce por lá, e quando ele resolvia aparecer, tava sempre com uma leve carinha de morte. Foi quando as conversas na copa passaram de sussurros para apostas descaradas.

“O patrão tá pegando a advogada. Ô lá na minha residência!”

Era o que mais diziam.

“Eita, manguaça! Alguém tem é que passar o telefone do Alcoólicos Anônimos pra ele!”

Vociferavam, esses animais.

Eu não pensava assim. Comecei a desconfiar que daquele mato saía sim algum cachorro, porém Bruce Wayne era um cara reservado e ninguém descobria o que estava acontecendo.

Naquela época o Batman tava dando a louca aqui em Gotham. Mas como a galera mais perigosa já tava tudo trancafiada no Asilo Arkham, ele só prendia a galera que fazia arrastão ali na avenida 12 com a 85. Mesmo assim, o patrão continuava aparecendo na firma com a cara formigando (parecia mesmo ressaca, mas o hálito era de boa, então deveria ser algo mais).


E tá lá eu mandando cada post fera no Face.

Ao mesmo tempo, a cabeça fazendo a associação óbvia: Bruce Wayne era The Batman. Comecei a observar mais, ver mais notícia, buscar as evidências. Nada de concreto. Fiquei encucado, passei a sair cada vez mais tarde do escritório da Wayne Enterprises.

O motivo não eram as minhas investigações a respeito da identidade do Batman, foi que eu peguei um freela de social media pro Gotham Shopping — O Shopping da Família e ficava esperando a aprovação dos posts até tarde (a equipe de marketing deles era muito enrolada). Além disso, a internet da firma era bem melhor e eu ficava até depois do expediente pra ninguém me ver fazendo freela no PC do escritório.

Mas foi numa dessas jornadas noturnas que escuto um barulho. Vinha do escritório do patrão. Não era pra ter ninguém naquele andar além de mim. O que Seu Bruce tava fazendo lá uma hora dessas?

Fui na ponta dos dedos. O coração na boca. Já ia entrar mandando um “FALA, SEU BATMAN!”. Mas preferi uma abordagem mais tranquila.

Uma luz tênue saía da porta dele.

Era agora.

Dei um pulo entrando na sala:

“EU SEI DE TUDO, PATRÃO!”

Ele tava lá, no computador. Na maior calma, o velho disse:

“Pô, não conta pra ninguém que eu to viciado em How I Met Your Mother não! Tô viradão, nem dormir eu durmo, aí já viu né!”

Olha aí o motivo da cara de desgraça todo dia de manhã!

Decepcionado, mas também aliviado por descobrir a inocente verdade, eu me despedi e voltei pra casa. Seu Bruce não era o Batman, ufa!

No outro dia eu fui despedido.

Não entendi o porquê. Até que, num estalo, lembrei:

“PUTS! Esqueci o PC ligado. Descobriram meu freela!”


Natan Andrade de Medeiros | Especialista em falar besteira.

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