Empuxo

Quando o meteorito atingiu o módulo S da pequena espaçonave de Daniel, ele soube que era o fim. O impacto brutal rompeu o capacitor de navegação, de modo que a nave, neste momento, era um carrossel que se afundava na escuridão do espaço. As luzes vermelhas piscavam em alerta, juntamente com um alarme ensurdecedor.

O réquiem do velho astronauta era acompanhado por lembranças. Dizem que a sua vida inteira passa diante dos olhos antes do fim. Na dele, só houve espaço para um dia, uma noite à beira do Rio Araguaia.

Os dedos quentes afundavam na areia enquanto Daniel olhava as estrelas. Uma memória que ele mantinha viva. O sussurro do vento trazia consigo as músicas que entoavam no acampamento do outro lado do rio. De onde estava, conseguia entender uma frase ou outra das canções. Avistava uma fogueira e uma grande estrutura de camping, além das figuras que, ao longe, cantavam e dançavam. Do seu lado, nada além da barraca e alguns mantimentos básicos. Eram suas últimas semanas na Terra.

A nave mantinha seu curso ensandecido espaço a dentro. O astronauta tenta comunicação com a Terra. Nada. Pelos monitores, tentou traçar a probabilidade de rota, dadas as atuais circunstâncias caóticas em que se encontrava. O resultado não o agradou. Se tudo continuasse assim, em minutos o seu módulo colidiria violentamente com uma enorme sonda russa, e a nave continuava seu caminho mortal.

Os dedos afundam na areia gelada. Daniel está sentado, apoiado nos joelhos. De onde está, consegue ver toda a extensão da ilhota que se formava sempre no mesmo lugar, todo ano, durante o período de estiagem do Rio Araguaia. Sabia bem, pois era o refúgio preferido do casal no mês de Julho. Antes de tudo o mais acontecer.

Antes do fim.

O desfecho daquela curtíssima epopeia espacial já estava escrito. Não havia mais o que fazer. Do espremido compartimento de pertences pessoais, o astronauta retira uma ampola. Daniel olha para o frasco com conteúdo marrom claro, um punhado de areia que coletara como souvenir do Araguaia. Ele volta seu olhar para o planeta Terra, através da minúscula janela da sua navezinha, cada vez mais distante. Por um instante, chegou a cogitar rir da coincidência sem graça de, ao mesmo tempo, olhar para a Terra e estar segurando um tanto dela em suas mãos. Mas não era momento de rir. Suas lembranças voltam a açoitar-lhe a cabeça.

Daniel vê uma criança aproximando-se da margem oposta do rio, brincando, muito afastada do acampamento. O pequeno não tinha nada da mãe, muito menos de Daniel. O binóculo que repousava ao seu lado fez os olhos do homem percorrerem o menino, o acampamento, a fogueira. O casal de amigos que ele conhecia tão bem, Vitório e Manu. O outro casal. A mulher de Daniel. Ex-mulher. O novo namorado dela.

Novamente, o menino. O rebento que era a prova viva da traição, quatro anos atrás. Ainda doía.

Daniel deixa o binóculo de lado, a boca tremendo, mas não de frio. O refúgio não era mais seu, de modo que seria tortura passar mais que uma noite ali. Já havia ido longe demais nessa perseguição psicótica. Quatro anos. Hora de voltar para a barraca e dormir seus sonhos de Araguaia, acordar cedo no dia seguinte e partir. O breve recesso do treinamento estava chegando ao fim. Logo, estaria a milhares de quilômetros de tudo isso. Longe do planeta. Longe do menino que brincava perigosamente na beira do rio Araguaia.

Na tela, o computador de bordo avisava:

5 minutos para o impacto.

Daniel já não tenta contato ou reordenação da rota. Segura o frasco diante dos olhos e espalha aquele pouquinho de areia na gravidade zero. Alguns brilham com a incidência das luzes vermelhas de emergência. Flutuando. Não havia mais nada a fazer. O velho astronauta volta a passear nas lembranças.

TCHIBUM!

Ninguém poderia dizer o tempo que durou tudo aquilo. O menino estava na beira do rio, agora não está mais. A noite era de lua crescente, tímida e escura, de modo que Daniel não viu mais que o borrão escuro. Ele não grita, não faz nada. A correnteza agressiva e silenciosa é mortal. Não via o menino, mas sabia que ele se afogava, pois conseguia ouvir, ainda que baixinho, o nado desesperado. O alarme soava forte em sua cabeça.

Última coisa a se fazer antes do impacto. A mais difícil. Daniel alcança a foto que deixara visível em seu módulo. Ele e a ex-mulher sorriam num fim de tarde tranquilo, no apartamento que dividiram por um tempo. Só mais tarde, mas ainda na mesma semana da foto, ela confessara a gravidez e o caso. Ela sabia que Daniel iria para o espaço e já decidira seguir outro caminho, sem avisá-lo. Ele rasga a foto. Aos navegantes, a única companheira é a solidão. O computador avisa: um minuto para o impacto, e só uma lembrança lhe faz companhia.

A correnteza forte arrastava mais e mais o menino.

Se gritasse, a mulher, ex-mulher, descobriria que estava ali, com binóculo e tudo mais. Não. Ele poderia lançar-se ao rio, um último ato heroico. Tinha porte, mas estava longe, as águas poderiam arrastar ambos para o destino cruel. Tentou, mas o reflexo não respondeu. A covardia enrijeceu seus músculos. O rio dava medo, mas a vergonha dava mais.

A música não parou. Ninguém viu. Já não dava mais. Nem borrão, nem água batendo, nem menino na água. Daniel levou as mãos a cabeça.

Enfim, entendeu que não estava sozinho. A culpa é a última companhia dos covardes.

Vinte segundos para o impacto.

A areia flutuava.

O menino não.


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Natan Andrade | Com saudades do Araguaia. Agradecimentos ao Felipe Martins pelas dicas.

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