Dois a um

Você já ouviu falar de Santo Antônio do Riacho? Claro que não. Quase ninguém conhece o causo dos pescadores que encontraram uma imagem de Santo Antônio no leito do Rio Pequeno. Quase ninguém sabe que esses pescadores fundaram um povoado depois do milagre. Quase ninguém lembra que esse vilarejo se mantém firme e forte no Vale do Paraíba até hoje. Simplesmente porque quase ninguém mora lá.

O título de cidade é um exagero necessário para sua catalogação e um elogio bem recebido pelos seus moradores. Engarrafamento? Só se for entre cavalos e cachorros. Santantonho, para os íntimos, conserva o clima bucólico de ter parado no tempo. A modernidade só chegou no ano passado, com a inauguração da lojinha de eletrônicos falsificados e assistência não autorizada do Seu Jiang.

Essa poderia ser a história de mais um povoado esquecido nesse mundão, mas não Santo Antônio do Riacho. Por um só motivo: ela é a terra natal do melhor apostador de bolão do mundo. Não, você não leu errado. Zé Palpite tem uma fama como adivinho de futebol que, como ele mesmo adora ressaltar:

– Vai donde o Sorr nasce, até donde ele desnasce.

Sujeito de personalidade forte, Zé Palpite ostenta um visual que destoa da monótona paisagem santoantonense: camisa de cetim que, faça chuva ou faça sol, permanece aberta até o umbigo, calça caqui, chinelos de dedo, escapulário de prata e um palito de madeira nos lábios. Mais carioca que paulista, o malandro não deixa a falta de cabelos ser um empecilho para jogar suas madeixas negras pra trás com a ajuda de um pente Flamengo.

Boêmio sem intenção de se recuperar, ninguém sabe onde mora, nem se tem família. O Bar do Juca parece ser a única rotina em sua vida. Há quem diga que ele vive no puxadinho do segundo andar, de favor. É bem verdade que as correspondências ele recebe por lá.

O grande Zé vivia no bar. Quer dizer, o grande Zé vivia o bar. Era a personificação do clima de um boteco. Falava mais alto quando queria mostrar que estava certo, quebrava copos, batucava na mesa. Um dia pagava a conta de todos, no outro pendurava a sua.

Mas nada de seu comportamento questionável desmerece sua capacidade. Uns são bons em construir pontes, outros em escrever livros. Zé Palpite palpita. Na verdade, Zé Palpite acerta. Não estamos falando de sessenta ou oitenta por cento de acerto, estamos falando de cem por cento, dez de dez.

Quase todos no vilarejo dizem que ele nunca errou. Alguns poucos se lembram de uma única falha durante a terceira divisão do Paulista de 91. Fazem questão de enaltecer que não foi de um, mas de dois gols.

– Taubaté três a dois no XV de Jaú. O parpite era dois a um. Mai num ligue prisso não, todo mundo erra, né? — dizem com sarcasmo.

– Inveja é uma merrda — responde Zé, com deboche.


O dom surgiu ainda na infância, junto com o interesse pelo esporte bretão. José Nonato começou com pequenas apostas de lanches nos jogos da Desportiva Santoantonense, gloriosa Alvirrubra do Paraíba. Seus palpites floresceram para o mundo num bolão da Copa de 82. Ganhou muito dinheiro ao prever a Tragédia do Sarriá e decretar a derrota do Brasil de Telê Santana para a Itália de Paolo Rossi. Desse momento em diante, José Nonato estava oficialmente rebatizado sob a alcunha de Zé Palpite.

Com a fama, vinha gente de todo canto apostar contra. Viu-se frente a frente com palpiteiros profissionais como o Pedrão de Aparecida do Norte, o Içá de Pindamonhangaba e até o famoso João Bolão, o Rei da Previsão. Zé provou que todos tinham mais marketing que habilidade.

Não errava uma. Dizia que seria três a três e, mesmo com o placar três a um pro Oeste de Itápolis no fim do segundo tempo, o Linense fazia dois nos acréscimos. Previa independente da nacionalidade, da idade ou do gênero do campeonato. Teve até uma época que só apostava em futebol feminino. Seu resultado era preciso, seja apostando no favorito, seja antevendo uma zebra.

– Num tem nada mais fácil de enxerrgá que uma zebra. De dia, cê óia pu preto. De noite, cê óia pu branco — filosofava.

Zé Palpite acertava de final de Copa do Mundo a amistoso de preparação para Pernambucano Série B. Ele costumava participar de bolões com o nome de Gabarito: é perguntar o placar pro Zé e esperar os gols no Fantástico.

Nunca trabalhou na vida, mas dinheiro não era problema. Vira e mexe ganhava uma bolada na Loteria Esportiva. Fora as apostas, claro. Nesse caso, os pagamentos vinham das mais variadas formas: dinheiro vivo, isenção de gastos ou esquecimento de dívidas.

Já recebeu assinatura de revista, serviço de motorista particular e um estoque de papel higiênico tão grande que pode ser chamado de vitalício. Tudo folha dupla. Já recebeu até em bolas de gude. Um galego de oito anos resolveu apostar o resultado de uma pelada de rua entre um time com camisa e outro sem. Pobre Paulinho.

Claro que o jornaleco da cidade já fez algumas reportagens sobre o Zé. Até um conhecido diário esportivo do Vale do Paraíba o entrevistou. Só que, como não registrava seus feitos, a taxa de acerto inacreditável soava mais como uma fantasia interiorana. E a Loteria Esportiva? Bem, o fato chamava mais atenção para um escândalo de corrupção do que para um dom como esse.

Até que tudo mudou. Graças à lojinha do Seu Jiang, as histórias de Zé Palpite alcançaram a internet. Cada vez mais pessoas vinham apostar contra ele, mais e mais repórteres vinham apurar seus feitos.

– Currpa dum tarr de Iutubil — dizia orgulhoso.

Ficou difícil manter a modéstia. Foi aí que Zé começou a exagerar. Acertar só o placar não era mais suficiente. Apostou num quatro a zero com dois de pênalti, num dois a dois com uma expulsão. Como continuava não errando, aumentava ainda mais a precisão de seus palpites. Parecia querer descobrir seu limite. Dizia o placar, quem marcaria os gols e com quantos minutos de jogo. Todos viam que estava descontrolado, arriscando demais. Nunca se apostou tanto contra Zé Palpite.


Como sempre, ao meio dia, todos se reuniram para ouvir o grande Zé. Mas, naquele domingo sem nuvens, a roda de pessoas já não cabia mais no Bar do Juca. Não era um dia qualquer. Era o dia. Como uma perversa brincadeira do destino, aquela seria a data em que se enfrentariam Taubaté e XV de Jaú, novamente pela terceira divisão do Paulista. Zé se encontraria com a página contestada de sua lenda e queria arrancá-la de uma vez por todas. A oposição queria provar que o mito era humano. A lógica era simples.

– Si ele errô esse jogo antes, vai errá traveiz.

Uma partida tão insignificante para o mundo. Uma partida tão grandiosa para Santo Antônio do Riacho. A cidade que vivia parada no tempo parou de vez. O grupo de apóstolos ouvia com deslumbre seu líder profetizar os próximos acontecimentos do mundo. Do futebol. Gritava fazendo o palito dançar em seus lábios, gesticulava dando ênfase em certas frases e até cuspia um pouco para impor respeito.

Apostou com quem quisesse que o mesmo dois a um pro Taubaté se repetiria vinte e cinco anos depois. Mas a insanidade do palpite não parou por aí. Precisava dar um toque de exagero ao resultado, de loucura ou de coragem. Ele queria acabar com as dúvidas, com as incertezas. Mas errou na mão.

– O jogo vai sê dois a um pro Taubaté, com um gol do sinhô juiz.


O Bar do Juca estava todo enfeitado com bandeirinhas. Cadeiras extras foram colocadas à disposição da torcida. Era bem provável que tivesse mais gente para ver esse jogo em Santo Antônio do Riacho do que em Taubaté e Jaú juntas. O clima de Copa só foi quebrado pelo primeiro gol do jogo: o XV de Jaú abriu o placar, assustando a todos. Inclusive Zé Palpite, que pela primeira vez ostentava grandes manchas de suor na sua camisa de cetim. Ele dizia que era o calor, mas o time de Jaú jogava melhor e estava mais perto do seu segundo gol que o Taubaté do seu primeiro. Os comentários contra Zé começaram a ganhar volume e um reboliço tomou conta do boteco.

O empate veio no início do segundo tempo. O Taubaté fazia sua parte, faltava o árbitro fazer a dele. O jogo seguiu morno até os quarenta e oito minutos, quando um escanteio para o Taubaté se tornou o último lance da partida. Não se ouviam nem os pássaros em Santo Antônio do Riacho. No Bar do Juca, o silêncio gritava.

Zé sentiu o cruzamento do lateral em seu coração: um forte tum anunciou o início da jogada. A bola viajou, entrou na confusão de jogadores na pequena área e a zaga afastou de lá. Foi aí que um meia do Taubaté, livre de marcação na cabeça da área, viu a bola se entregar de bandeja para o chute de sua perna direita. De bate-pronto, colocou a pelota na direção do gol novamente.

A bola passou pelo goleiro, bateu forte no travessão e quicou na linha do gol. Entrou? Não entrou? As câmeras não conseguiam decidir nada. Mas alguém tinha que fazê-lo. O juiz aponta o meio de campo e valida o tento. Taubaté dois, XV de Jaú um.

Os jogadores jauenses cercam o árbitro e começa uma confusão no gramado. Os apostadores santoantonenses cercam Zé Palpite e começa uma confusão no boteco.

– Ê Zé, dessa veiz num deu. Num teve nium gol di juiz.

– Seu Zé acerrtô mais uma! A bola num entrô, intão foi o juiz que deu o gol!

– Mai se a bola num entrô, num foi gol. O jogo foi um a um!

– Mai num entrô memu! Óia lá! O juiz que deu o gol! Isso é gol de juiz!

– Cêis tão marr das vista! É claro que a bola entrô! Gol legal!

– O gol foi legal, mai já tinha passado os acréscimo! Por isso foi gol de juiz!

– Eu num vi juiz chutano bola niuma!

– Vamô tê que vê essa súmula.

Todo mundo tinha uma opinião, menos Zé Palpite. O palito de sua boca repousava no chão. Ao notar sua paralisia, a confusão se aquieta e todos se voltam para ele. O silêncio pesa no ar. O boteco ganha ares de cemitério. Aos poucos, Zé retorna à realidade e traz consigo sua conhecida personalidade. Pega o palito no chão, assopra e o leva à boca. Tira o pente do bolso, joga o cabelo pra trás e dá uma leve tossida para limpar a garganta. Mas não diz uma palavra. Apenas dispara um sorriso malicioso, como quem pede o pagamento das apostas.

O Bar do Juca enlouquece.

Talvez, daqui a vinte e cinco anos, os deuses do futebol permitam que Taubaté e XV de Jaú resolvam esse problema. De novo.

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