Paraíso

Hora de ir ali, se perder um pouco e voltar atrasado.

Quando meu chefe, o Lionel, chegou trazendo mais um relatório pra fazer no final da tarde, minha mente me levou automaticamente para minha pousadinha em Ilhéus.

Sentado na Beira da Praia, escutando Aviões do Forró volume sete, a Bavária Premium gelada ao ponto de não sobrarem forças nas papilas gustativas.

Caralho, esse era o meu paraíso.

Foi quando vi uma cena de dar inveja em qualquer James Bond: Taynnara saía lentamente da água, uma mina meio índia, meio deusa, que animaria até Seu Dionor, meu vizinho de oitenta anos que responde qualquer bom dia com um “Humpf”. Velho filho da puta.

Taynnara aproximou-se. Diminuí dois centavos da caixinha de som, limpei a areia das mãos e dei mais um gole na cerveja.

“Posso sentar aqui contigo?”

Claro, coisa linda. Indiquei o balde de Bavária, ela serviu-se sem modéstia.

Logo, ela me confessou que já foi dançarina do Aviões, que Bavária era sua cerveja preferida e que estudava pra ser enfermeira. Não era possível. Crush instântaneo.

“O que tem pra fazer aqui hoje à noite?”

Ela perguntou.

“Pô, vou dar uma festinha para os hóspedes da minha pousada. Tá vendo ali? Pousada Chamego Bom. É minha.”

Ia indicar também meu Renault Duster parado à porta, mas achei que ela já estava convencida.


Bandeirolas, camarão empanado, cachaça e cerveja. A festa estava perfeita. Exceto pela Taynnara, que não aparecia.

Bom, pelo menos eu tentei. Vai ver ela não se empolgou com meu flerte meio paulista. Da próxima vez, eu ia levar o papo pra séries do Netflix.

Resolvi me embreagar mesmo. Perto da meia-noite, enquanto eu fumava unzinho na varanda escutando as ondas quebrarem, ouvi gritos. Gritos femininos.

Taynnara, a índia, corria aos tropeços pela praia. Ao seu encalço, um homem com porte de pescador, camisa aberta até o umbigo e ódio no coração perseguia a moça. Ah, isso eu não permito!

Saí correndo de encontro a eles. Taynnara, ao me ver, encaixou-se nos meus braços. Pedia socorro, o ex-namorado estava ensandecido de ciúmes.

“Cabra miserento! Arreda o pé antes que sobre pra tu!”

Ah, meu amigo. Se tem algo que eu não levo para casa é o tal do desaforo.

Usando minhas habilidades marciais da época que morei em Bangcoc, dei-lhe uma rasteira e uma dedada nos olhos. Soco no coração pra desacordar o safado e um cuspe na cara pra ele ver quem manda nessa merda.

“Pronto. Esse aí não mexe mais contigo!”

Taynnara passou do medo ao encanto. Sem tempo para segurar o desejo, nos despimos e fizemos amor ali mesmo, nas areias da praia, ao lado do corpo do ex.

Foi de boa.

Voltamos para a pousada e dormimos na varanda, olhando as estrelas e curtindo a brisa morna. Acordei sem ela.

Acho um bilhete ao meu lado. Dizia “Eita!”, sem número de telefone nem nada.

Agora, sigo todos os dias o mesmo ritual. Acordo, praia, Aviões, Bavária e um desejo de reencontrar Taynnara, a Índia.

Repartição. Papel. Computador. Cheiro de cheetos. Porra, quanto custa uma passagem pra Ilhéus?

“Ooô, Parreira, são quinze pras seis, esse relatório sai hoje ou não sai, rapaz?”

“Já vai, chefe, já vai.”


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Natan Andrade | Quem nunca deu uma viajada no meio do expediente, ein?

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