Descoberta

A saga de um escritor.

O escritor decidiu que iria escrever sobre a felicidade; sobre os anos dourados da infância, sobre os amores vividos, sobre as esperanças de um mundo melhor.

Ajeitou-se na frente do computador, tomou um pouco de água e como numa sessão de psicanálise se reclinou sobre a cadeira a fim de visitar suas lembranças felizes.

Pensou. Pensou e pensou, mas diferentemente do que imaginava ao invés de relembrar as vitórias, ele visitou as lembranças amargas. Lembrou-se dos momentos que foi caçoado na escola, lembrou-se que nunca fora um garoto vistoso aos olhos de suas pretendentes e jamais teve um amor correspondido. Foi rejeitado por seus amores mais secretos.

Se afogava constantemente em romances que nunca viveu, ainda assim alimentava alguma esperança de um dia experimentá-los com sagacidade. Mantinha uma vívida cicatriz aberta no peito, feita pelas vezes que foi desprezado por enxergar beleza no feio, pelas vezes que dialogou com bêbados, pelas vezes que se sentou ao lado dos rejeitados, pelas vezes que desprezou prazeres carnais.

Então divagou sobre as expectativas de vida. Percebeu que a literatura foi sua companheira inseparável, que as letras o cativava mais que as mulheres, os sonetos eram mais ardis do que qualquer prazer passageiro.

Depois de tanto pensar percebeu que não tinha tantas vitórias e sendo assim, não estava gabaritado para dissertar sobre a felicidade. O escritor andava meio de lado escondendo o rosto pálido, apertava uma mão contra a outra como se lhe faltasse um par. Constatou que a melancolia sempre foi sua bagagem inerente, porém isso não o tornava um homem fracassado, mas em toda a sua glória aquela melancolia o havia transformado em poeta.

Um poeta triste.

Paulo Sales ©


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