Complexo do Cabeleireiro

Sobre cabelo, relacionamento e intestino.

Quinta-feira, uma e quarenta da manhã. Estamos em Brasília, a capital dos bares que não aguentam uma madrugada adentro. Cheguei no boteco e tava só o Armando, garçom velha-guarda que às vezes dividia uma cachaça comigo.

“Ô Armando, ainda rola de tomar uma pinguita?”
“Mas é claro.”

A cara de morte denunciava o contrário, mas como bom cara-de-pau, não me importei. O Armando, já cansado do batidão, aproveitou pra trazer também um litrão e sentar na minha mesa.

“Cadê a gatinha?” O Armando perguntou. Era o que tinha me levado até ali, ao único boteco que ficava perto de casa e me aceitaria às, pera aí, deixa eu conferir. Isso, uma e quarenta e cinco da manhã. Pra beber e esquecer essa desgraça.

A mesma pergunta que eu fiz ao último garçom da Asa Norte, eu repito à você:

“Quer mesmo saber?”

Beleza. Eu sabia que sim. Então vamos lá.

A gente tava ficando só há uns dois meses, nos vimos só umas sete vezes. Três dessas, estávamos mais embriagados que o André Balada, fomos direto pra cama. Tire uma vez que o furioso não quis subir e nos sobram apenas uns poucos encontros mais ou menos legais. Nem conversamos direito e ela morava longe. Sei lá se ela tinha curtido meu estilo skatista fracassado. Então, não tinha jeito, era hora de terminar.

Mas como todo cidadão do mundo, eu nunca fui bom nisso. Tentei dar a famosa sumida, mas a sujeita era de uma força de vontade hercúlea. Se eu não respondia, ela perguntava por mim. Se eu continuasse sumido, ela ligava. Se não atendia, batia à minha porta. Olhando as coisas agora, acho que aquela era uma pra ter mantido, mas eu estava tão de saco cheio que decidi pelo fim da enrolação mesmo. Final digno. The End. La Fin. Ponto final.

Vesti minha camiseta mais pica. Calça sarja branca, tênis da Oakley. Eu estava muito gato. O motivo do zelo era óbvio: se vai terminar com a mina, melhor deixar a impressão de que você é um cara pra não esquecer, alguém pra ligar nas madrugadas de insucesso pós-balada.

Passei na Tia Cláudia, o restaurante do lado da Faculdade de História, e mandei um puta de um PF de feijoada, o alimento do guerreiro que se prepara para o confronto final. Peguei um ônibus e fui encontrar a gatinha.

“Ou, tem trepação nessa história não?” Perguntou o Armando, na esperança de que a história virasse um Cine Band Privé pra cego.

“Não. Tem não, my brother.”

O Armando deu um trago no Derby e mandou eu continuar a história.

No ônibus, bateu aquela bad. Sabe qual é? Eu chamo de Complexo do Cabeleireiro.

Seu cabelo tá gigante. Feio que nem a disgrama. Você tá parecendo uma porra de um Neanderthal. Hora de cortar o cabelo, não dá mais. Aí você vai, pega os quinze conto e vai no cabeleireiro. Chegando lá, você olha no espelho e uma coisa estranha acontece. Milagrosamente, seu cabelo parece melhor do que nunca. A vontade de cortar quase some. Juro. Você olha no espelho e quem te olha de volta é o Fábio Assunção, saca? Sua cabeça te engana, parceiro. Não tá nada bom, mas parece que tá muito excelente. É o medo da mudança. Complexo do Cabeleireiro.

“Será que eu tenho que terminar?”

Eu falei baixinho no ônibus. Puta mina estilosa. Faz Ciências Sociais, troca uma ideia massa, manja de cachaça e de cama. Pô, talvez role mais uma vez, eu pensei. Será que é pra terminar mesmo? Será que não é hora de ver, pela primeira vez, se ela quer algo sério? “Vai que dá, moleque”, a consciência me venceu. Desci do ônibus disposto a voltar pra casa amarrado, casado, se ela quisesse também.

Se Deus não me odiasse, a gente estaria de boa hoje e eu não estaria aqui, Armandão.

Acontece que a porra do restaurante da Tia Cláudia resolveu que requentar uma feijuca da semana passada seria boa ideia. Eu já tinha pedido pro porteiro interfonar quando, de sopetão, tomei um soco no estômago da Escherichia Coli que se hospedava agora no meu intestino. A dor de barriga chegou sem pedir licença, meu véio.

Aí me desce a mina. Linda pra caralho.

Foi um beijo no rosto e um peido molhado. Não deu pra disfarçar. Me caguei.

Ela me olhou. O olho verde encheu de lágrima, brother. Não sei se de tristeza ou se não tava aguentando a catinga. Deu meia volta e foi embora. Ainda me deu dedo, antes de entrar no elevador. Caguei o relacionamento, literalmente.

A volta foi a expiação de todos meus pecados, Armando. Eu voltei todo cagado no ônibus. Sem mina, sem nada. É isso. Cheguei em casa, me lavei, dormi pra caralho e agora tô aqui.

É isso.

O quê?

Faz essa cara não, porra. Você disse que queria ouvir a história. Eu contei.

Leia também:

Curtiu? Dá um recommend!
Natan Andrade | Precisando cortar o cabelo.

Facebook | Twitter | Revista Simbiose

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.