Camões vai à guerra

Pode o amor servir de justificativa para qualquer atitude tomada em nome dele?

Monte Castelo, o que realmente é um monte

Sigmund Freud possuía, em sua tríade do aparelho psíquico, a explicação para o modo de agir humano. A tentativa freudiana de explicar o pensamento serve de base para compreender a irracional força que nos governa ao amar; frequentes antagonismos que, quando transformados em sentimento, agem em nossa mente como a forma mais bela de se expressar. Forma esta que vai além do fruto passional de um relacionamento, sendo necessária para o bem coletivo da sociedade. Em épocas de guerras e de um individualismo cada vez mais perene na população, ainda que se fale as línguas dos homens e dos anjos, sem amor, nada seremos.

A busca individual por felicidade afasta cada dia mais as pessoas, criando um marco no modo como interpretamos relacionamentos atualmente. Casamentos quebrados, bens divididos, filhos vistos somente nos finais de semana. Tom Jobim dizia ser "impossível ser feliz sozinho", e a visão individualista e a busca incessante de afirmação pessoal parece ir contra os versos do poeta fluminense; "estar-se preso por vontade" não faz parte da poesia amorosa atual, sendo sine qua non a busca por satisfazer a si mesmo mais que o casal como um conjunto.

A cara de quem julga sua falta de amor ao próximo

Presente em nossa história e contado em milhares de facetas, o amor é visto como sentimento latente e transcendental dos relacionamentos, afastando-o da visão diária, corriqueira para com todo o resto de nossas relações interpessoais. Transformar o amor em uma ideia puramente poética é isolá-lo da realidade, muitas vezes dando lugar à indiferença em relação para com os quais possuímos menos contacto, negligenciando seu caráter de mudança em diversas áreas da humanidade. A desumanização de um mundo que possui tantas histórias românticas mas que prega a discórdia e a intolerância, é o antagonismo pleno de uma geração hipócrita. Amar é dar razão ao irracional, é transcender os "quinze meses e onze mil contos de réis" escritos por Machado de Assis e transparecer o mais límpido e virgem sentimento de compaixão diante do outro como objeto-valor de um mundo melhor.

Musa inspiradora de poetas e músicos, substância letal que corrói nervos de aço sem fazer-se sentir, droga que vicia até os mais impiedosos e cruéis, incógnita digna de matemáticos e físicos. Das artes à ciência, jamais encontramos o motivos que nos faz amar. Amar é puro como deixar-se ser amado, sendo responsável por incontáveis atos de bravura e loucura. Luíz de Camões escrevera que: “Tão contrário a si é o amor”, e o poeta português transcende o épico marítimo dos Lusíadas ao nos agraciar com o antagonismo que é este sentimento. Dissertar sobre este é dissecar o ser humano, e expor a faca de dois gumes da racionalidade por trás do irracional.


Texto baseado no vestibular da UFRGS de 2004