Autocorretor politicamente correto

No dia 28 de junho, João resolveu expressar seu orgulho de ser hétero. Abriu o aplicativo do Facebook no celular e começou a digitar. Escreveu sem floreios o quanto valorizava sua sexualidade. Gostava de ser homem de verdade, assim como seu pai tinha sido, assim como seus filhos seriam. Gostava de ser homem de verdade, assim como Deus tinha inventado e a biologia descoberto. Era XY, fã de buceta e coçador de saco. Hétero como todos os grandes personagens da história: Winston Churchill, Chuck Norris e Wesley Safadão. Continuaria sendo homem e hétero não importava o quanto um certo partido dos trabalhadores tentasse enfiar “ideologia de gênero” garganta abaixo. Defenderia o direito de todo homem ser homem e todo hétero ser hétero e a ditadura gayzista que se foda! Homem é homem, caralho!

Apertou o botão de publicar e aguardou, com orgulho, seu post se tornar público. João, assim como a maioria dos usuários de mídias sociais, tinha selecionado cuidadosamente seus amigos com o passar do tempo. Quando via algum conhecido postando comentários esquerdopatas ou vitimistas, desfazia automaticamente a amizade. Gostava de ver posts que expressavam seu estilo de vida e sua forma de pensar. Por isso foi uma surpresa quando viu uma antiga colega sua de ensino médio, que tinha virado uma daquelas feminazis chatas, curtindo seu post. Estranhou, não sabia nem que continuava como amigo dela. Em seguida, recebeu a notificação de um comentário da mesma garota.

Que bom que você pensa assim, João. Fico feliz que tenha mudado tanto, tá apoiadíssimo

Porra, como assim? João nunca mudou. Muito pelo contrário, com 22 anos ainda cortava o cabelo igual cortava aos seis: estilo militar. Incomodado, foi reler seu texto. Ele começava falando que tinha muito orgulho de viver em uma época em que as pessoas tinham coragem de lutar por seu direito de amar. Descrevia sem floreios o quanto apoiava o movimento LGBTQ. Gostava de saber que tinha gente enfrentando preconceito e ficava feliz porque se um dia seus filhos fossem gays, lésbicas, ou trans, eles com certeza se beneficiariam de toda essa luta. Era XY e heterossexual, mas acreditava que o amor era maior que biologia, religião e amarras sociais. Defenderia os direitos dos homossexuais, dos transsexuais e de todas as pessoas queer de cabeça erguida, sem pestanejar. Amor é amor, caralho!

Incrédulo, João leu tudo sem piscar. Que merda que tinha acontecido? Será que o autocorretor tinha mudado tudo? Acessou as opções da postagem e apertou o botão de apagar incessantemente. Já tinha 15 curtidas, todas de pessoas que ele aparentemente tinha esquecido de excluir do Facebook. O aplicativo notificou que a publicação estava sendo deletada, mas nada disso acontecer. Desesperado, levantou o celular em direção ao teto e perambulou pelo quarto para ver se a recepção do wi-fi melhorava. Assustou-se com uma batida na sua porta. Era sua mãe, queria saber se estava tudo bem. João disse que sim, mas ela manteve uma expressão preocupada. Entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. Mostrou a tela de seu próprio celular para o filho e perguntou:

“João, foi você que postou isso? Recebi num grupo do zap zap e fiquei muito preocupada… Você não é gay não, né, filho?”

“Não, mãe! Que isso, nem pensar! Deu merda no meu face… foi hackeado! Isso, foi hackeado. Algum filho da puta deve ter me hackeado, sabe? Pra tirar com a minha cara, mas eu vou resolver isso, pode deixar.”

“Nossa, filho, fico aliviada… Ainda bem. Cê sabe que eu não tenho nada contra gay, né? A filha da Candinha é sapatão e eu adoro aquela menina, mas… A gente sabe que não é certo.”

João concordou. A mãe estava certa, era exatamente assim que ele pensava. Nada contra, mas… Olhou o relógio. Ih, já tava se atrasando pra aula! Pegou a mochila, a chave do carro, deu um beijo na mãe e saiu. Abriu o Facebook em todo sinal vermelho que encontrou na esperança de finalmente conseguir apagar a maldita publicação. Ao chegar na faculdade se espantou ao perceber que já estava com mil curtidas e 100 compartilhamentos. Puta merda! Entrou na sala, professor tinha começado a falar e que a maioria da turma já estava ali. Enquanto subia pra se sentar ao lado dos seus amigos, reparou vários olhares estranhos em sua direção.

“Ei, João. Que porra é essa no teu Facebook, broder? Tá virando viadinho, é?”

“Vai de foder! Algum fdp me hackeou, to tentando excluir a parada e não consigo.”

“Se apressa aí, cara, ou as mina vai achar que tu gosta de dar o bumbum, hein!”

Durante a primeira parte da aula, João não tirava os olhos da tela do celular. Mesmo assim conseguiu notar que, ao seu redor, todos os seus amigos riam e debochavam da sua cara. Os números de curtidas, comentários e compartilhamentos só aumentavam e não importava o que ele fizesse, não conseguia apagar a publicação. Percebeu enfim que estava completamente impotente. Só podia sentar e olhar toda sua reputação ser destruída.

No intervalo, foi com os amigos comprar um lanche. Notou que eles tentavam não ficar muito próximos dele e às vezes e o excluíam da conversa. Sentiu uma cutucada no braço, era Marcelo, o único cara (abertamente) gay do seu semestre.

“Beleza, João? Vi seu post e curti muito! Botei até aquela reação dos coraçõezinhos! Arrasou!”

Enquanto Marcelo se distanciava, João percebeu que seus amigos também pareciam mais distantes, quase como se tivessem deliberadamente dado alguns passos para trás para se afastar dele. Sentia como se tivesse lepra, ou até pior, como se tivesse AIDS. Inventou que precisava ir ao banheiro. Caminhou em direção aos sanitários e antes de entrar, tomou outro caminho. Saiu do prédio, começou a andar pelo campus. Era de noite, então tinha pouca gente na universidade. Estava frio e ele estava sem casaco, mas não fazia diferença, ele nem sentia seu corpo direito. Nunca tinha se sentido tão rejeitado, era estranho. Parecia que as pessoas só gostavam dele por motivos superficiais. Se ele fosse gay, isso não mudaria sua personalidade, ele continuaria sendo o mesmo João, a mesma forma de pensar, a mesma forma de agir. Por que sua heterossexualidade era tão importante para sua família e para seus amigos?

Ao longe, João começou a ouvir uma confusão. Um grupo de pessoas vestidas de verde e amarelo, todos com a bandeira do Brasil ao redor do corpo, gritavam em frente à um dos prédios da universidade. Xingavam os alunos lá presentes de vagabundos, viados e vadias. Os alunos também revidavam, chamando os “protestantes” de reaças, ignorantes e preconceituosos. Quase que por uma força magnética, João foi atraído para a situação. Não se meteu, ficou de longe, só observando. Depois de algum tempo, a Polícia Militar do campus apareceu e começou a separar as pessoas. Na direção de João vieram três garotos mais ou menos da sua idade. Um deles apontou para João e gritou:

“Ei, não foi tu que postou aquela parada apoiando os viado no Facebook?!”

Instintivamente, João começou a correr. Os três garotos repetiram sua ação e partiram atrás dele. Ele conhecia o campus melhor, mas eles eram mais rápidos. À certa distância, João olhou para trás e não percebeu a pedra que tinha no seu caminho. Tropeçou, caiu no chão e logo foi alcançado. Dois dos garotos o levantaram e outro esmurrou seu estômago. Bateu até que João não conseguiu mais ficar em pé. Deixaram-no caído no chão, cuspiram nele e declararam:

“Isso que dá ser viadinho.”

Deitado, derrotado e dormente, João chegou a conclusão de que aquela era a pior noite da sua vida e, por um momento, imaginou como era ter que passar por isso diariamente.