Spirited Away (2001)

Aquela vila éramos nós

Chamava Monte São Bernardo, em homenagem àquele livro do Graciliano Ramos que lemos de paradidático na sexta série. O “monte” do nome não era propriamente um relevo. Lembrando bem, na verdade era. Um relevo bem insignificante que irrompia a calçada na frente da sua casa como se fosse um siso inflamado. A primeira vez que eu fui lá te perguntei como aquilo tinha ido parar ali. Tu me disse que não sabia, mas que achava que era um meteoro que tinha caído do céu numa noite barulhenta. Ninguém tinha percebido porque o forró do bar ao lado tava muito alto e ele tinha ficado lá, decorando o cinza do calçamento com um vermelho-barro. Eu gostei da sua teoria, mas argumentei que também podia ser um monte. Filhote de montanha que começou a crescer embaixo da cimento. Assim que ele botou a cabeça pra fora alguém passou por cima e ele não cresceu mais. Que nem quando alguém passa por cima das nossas pernas e a gente não cresce mais. Você riu que fazia sentido e que eu devia saber, porque pela minha altura, isso tinha acontecido comigo. Foi assim que surgiu o nome Monte São Bernardo. Se bem que parando pra pensar agora, Meteoro São Bernardo é um nome muito melhor.

Mas eu sempre fui assim, o dominante. Ascendente em Áries, sabe como é, sempre consegui governar sua lua em Peixes. Por isso da nossa vila eu era o prefeito e você o tesoureiro. Não que a gente se importasse tanto com a política, nossa questão era mais social, psicológica até. Era o padeiro apaixonado pela médica do município. Ele não tinha coragem de confessar pra ela o que sentia, medo de ser rejeitado. Você falava que era porque ele se sentia envergonhado da pouca formação que tinha, mas eu sempre achei que era porque ele não queria arriscar levar um “não”.

Quando a filha do florista nasceu você foi embora. Não porque queria, seu pai foi transferido. A gente comemorou o nascimento da Orquídea. E riu porque era um nome muito diferente, mas muito bonito e era nome de flor, uma flor que a gente nunca tinha visto. Nome perfeito pra uma filha de florista. Tu brincou que toda despedida era um começo, nesse caso o começo era o nascimento da Orquídea. E que, quem sabe, quando ela tiver seus seis ou doze anos a gente não se reencontra. Por que precisam ser múltiplos de seis? Oxe, porque eu gosto. É, você sempre teve mesmo uma coisa com múltiplos de seis, eu lembro. Segundo minhas contas, agora a Orquídea tá completando seus dezessete anos. Espero que no décimo oitavo aniversário dela a gente consiga se rever.