Aos que escrevem

Queria, às vezes, parar de escrever.
Alguns contam centavos para comprar
cigarros na banca, alguns olham as moças
passando sem esperança, alguns torcem
enlouquecidamente e desbravam o país.

Alguns perderam tudo. Já não conhecem
mais a morte. Morte só vive naqueles que esperam,
que torcem, desbravam países, almejam alcançar centavos, um corpo
sem rosto ou braços. Buracos. Na pele, nas veias, no rosto. em mim 
— sugando tudo q’é espaço. Deixando só a escrita, parem-la.

Rápido, rápido! Avisem aos mais novos.
Rasguem as gramáticas, acabem com os prantos.
Destruam as estórias, ilusões d’outrora, musas d’agora
— que me fazem sorrir. Destruam tudo, queimem as bruxas!
Dar-lhe-ei as palavras, só deixa-me fugir.