A verdade

O secretário-geral limpa a garganta para começar o discurso quando um celular começa a tocar. Seguido por outro e outro e outro. Em pouco tempo, todos os presentes na sede da ONU já disputavam um lugar nas janelas.

As ruas estão completamente tomadas, mas não por manifestantes. As pessoas estavam mais para estátuas: nenhum passo era dado, nenhuma palavra era trocada. Apenas as mãos apoiadas sobre as sobrancelhas e os olhos voltados para o alto. Essa postura se repetia a perder de vista.

Foi quando o prédio todo começou a tremer. Antes que alguém pudesse pensar em terremoto, uma sombra gigantesca toma conta da paisagem. O dia vira noite. A curiosidade vira desespero.

Não dava pra chamar aquilo de nave. Era assustador pensar como algo daquele tamanho conseguia se manter no ar, pairando suave como um helicóptero. A pergunta não era “o que” e sim “de onde”. O que quer que seja, não era desse planeta.

Uma porta se abre. Luzes coloridas piscam em um ritmo alucinante. Uma música começa a tocar.

“Planeta Terra lá, lá lá lá lá lálá, lá lá lá lá lálá lálá lálá…”

O vulto de um ser surge no meio da fumaça. Antes que alguém pudesse correr, o delegado brasileiro se pronuncia.

– Silvio Santos?!

– Ma oê!

Ele fica sem reação.

– Meus parabéns, vocês foram promovidos à Liga Universal!

Assopra uma língua de sogra. A paralisia do delegado continua.

– Vocês foram o centésimo planeta a inventar inteligência artificial nesse século!

Assopra uma língua de sogra.

– Isso é uma pegadinha?

– Ma ma eu ouvi pegadinha?! Haha hihi! Ma não é pegadinha não, não é pegadinha não! Eu vim de outro planeta!

– Silvio Santos é um ET?!

– Isso eu não sei! Mas eu sou um ET!

– Decide, Silvio! Você é um ET ou não?

– Vem pra cá! Vem pra cá! Deixa eu explicar! Bem, eu entrei nas suas memórias para buscar figuras humanas que você associasse a boas notícias! Foi assim que assumi a forma desse apresentador! Quem quer dinheiro?! Olha o aviãozinho!

Joga um aviãozinho de cem reais. A nota plana por um tempo e cai no chão miseravelmente. Ninguém se move um milímetro para pegar.

– Ma ma você é lerdo mesmo! Muito lerdo você! É, é, os estadunidenses tão falando com a Oprah, os japoneses com o Sanma, os colombianos com a Shakira e assim por diante.

– Silvio Santos? É sério?

– Culpe a televisão brasileira, não a minha pesquisa.

– Sei lá, é que sempre achei que o alienígena era o Gugu. Enfim, o que você tá fazendo aqui?

– Ma ma tá difícil! Tá difícil! Bem, eu vim contar que vocês foram promovidos à Liga Universal!

Assopra uma língua de sogra.

– Dá pra parar de imitar o Silvio?! Você tá me confundindo ainda mais…

– Ma ma é muito divertido!

Delegado fica sério.

– Pronto! Assim tá melhor?

– Como vocês acharam a gente?

– Não seja inocente! A gente observa vocês há muito tempo!

– Tipo décadas?

– Tipo desde que vocês falavam assim — alienígena faz linguagem de estalo.

Delegado não reage.

– Desde que vocês estavam naquela onda de fazer pirâmide. Era pirâmide na América, na África, na Europa, na Ásia. Nunca vi gostar tanto de empilhar pedra! Ainda bem que a criatividade de vocês melhorou com os milênios.

– E porque demoraram tanto pra fazer contato?

– A gente estava esperando vocês evoluírem.

– Evoluir?

– Você é novo por aqui? Olha em volta! O ser humano tá nessa de escravidão há uns dez mil anos. Faz mil que vocês começaram com os rolês pelo planeta e ainda ficam separando branco de preto de amarelo. E os caras nem são tão amarelos assim. A única coisa que vocês concordam é que esses pedaços de papel verde com cara de gente morta são incríveis. E, pra falar a verdade, nem são tão incríveis assim. O mais legal é fazer aviãozinho com eles.

– Já falei pra parar com essa história de Silvio Santos!

– Tá bom, tá bom…

– Se vocês só ficaram observando, porque diabos faziam aqueles desenhos nas plantações?

– Desenhos nas plantações? Ah, aquilo é só marketing. Inclusive, foi mal ae.

– Marketing?

– Sim, é bom para promover o show. O universo tá nessa onda de intervenções planetárias agora.

– Que show?

– O seu show!

O alienígena tira um pôster com uma imagem do planeta Terra onde se lê “Planeta Pop, sete bilhões de participantes em um pontinho azul da Via Láctea”.

– Eu não gosto muito do nome, mas fez um sucesso estrondoso em Andrômeda.

– Que?!

– Como eu posso explicar…vocês são nosso BBB.

O delegado nem se esforça mais para esconder a boquiaberta.

– Nossa Fazenda, nosso No Limite, nosso Masterchef, nosso…qual o nome daquele que demite a galera?!

– O Aprendiz?!

– Isso! Vocês são tudo isso junto em um programa só: a vida na Terra.

– O universo inteiro fica assisitindo a gente aqui?!

– Não seja bobo! Todo o universo…só umas galaxias do seu grupo local e olhe lá! Mas a audiência melhorou muito desde que vocês começaram com essa história de separar o mundo em países pra organizar melhor as guerras.

– O planeta Terra é um reality show?!

– O planeta Terra é um planeta. A gente que transformou num reality.

– Cê tá brincando comigo…

– É o mesmo princípio dos vídeos de gatinhos e bebês da sua internet: é bom demais assistir seres subdesenvolvidos fazendo idiotices!

– Isso é uma puta sacanagem!

– Calma, calma! Não vamos nos alterar! Você acha que é fácil fechar um acordo sobre o que fazer com todas as formas de vida subdesenvolvidas no universo?! Era isso ou imperialismo espacial. E vocês viram o que o imperialismo fez com seu planeta…

O alienígena completa.

– Isso porque era um bando de europeus com cavalos e pólvora contra indígenas com armas de madeira. Imagina só seres que manipulam energia de supernovas contra vocês, que nem sabem fazer fusão nuclear direito. Essa treta não ia durar uma rotação do seu planeta!

– Treta?!

– Qual o problema de um alienígena falar gíria?! Que caretice…

Silêncio.

– Além disso, acompanhar os erros que vocês cometem são os maiores ensinamentos que podemos ter. Não pense num reality show: pense num estudo de caso com entretenimento.

– Porque vocês não avisaram a gente?!

– A interferência é pior que o voyeurismo. Pode acreditar em mim. Mas agora tudo mudou! Vocês vão entrar na Liga Universal!

Assopra uma língua de sogra.

– Isso é uma ONU de planetas?

– Não só de planetas! De luas, de colônias espaciais, de ocupações de refugiados…de todas as formas de vida evoluídas. Vocês vão ser membros observadores por alguns milênios, até poder votar com o grupo local da Via Láctea. O voto individual só vem com o domínio do seu sistema solar. E o poder de veto, com o domínio de galáxias.

– Parece demorado.

– Não se preocupe! Você já viu o tamaninho da Via Láctea? Em uns cem mil anos, vocês vão ser os reis do pedaço. Isso aqui é uma várzea. A Via Láctea é tipo o Lesoto do Universo.

– Lesoto?

– Exatamente.

O alienígena continua.

– E vocês ainda podem assistir o reality de outros planetas menos evoluídos! Fiquei sabendo que o Show de Azitra tá muito engraçado: os caras acabaram de descobrir que o planeta deles não é o centro do universo!

– Só que eu ainda não engoli essa história de reality. Não dei permissão pra ninguém se divertir com o que faço ou deixo de fazer. Eu não sou macaco de circo!

– Tecnicamente, você era um macaco. Não de circo, mas você entendeu.

– Foda-se! Eu não quero fazer parte de uma Liga que brinca com a vida desse jeito! É melhor você ir embora e deixar a gente em paz!

– Pense na quantidade de conhecimento que vocês podem adquirir. Não vai dar pra explicar tudo de uma vez, ia explodir suas cabecinhas. Literalmente. Mas em menos de um ano vocês devem estar bem antenados.

– Um ano?

– Um ano luz.

Delegado dá de ombros.

– Por exemplo: eu estou falando diretamente na mente de cada habitante da Terra. Ou você não notou que minha boca não está se mexendo?! Assim, eu posso usar a língua materna e a aparência de uma figura representativa de acordo com as memórias afetivas de cada um.

O celular cai da mão do delegado.

– Pense nas trocas comerciais com outros planetas, na possibilidade de conhecer elementos químicos que vocês não tem aqui na Terra. Pense que vocês podem ter conhecimento pleno das leis que regem o universo!

– Não interessa! A resposta é não!

– Tudo bem, tudo bem. Só preciso avisar que, infelizmente, insurgentes não são bem vistos pela Liga Universal. Já passamos por situações bem chatas algumas centenas de vezes.

– Você está nos ameaçando?!

– Não! Que isso! Só estou falando que vocês não precisam conhecer o Exército Universal. Não sei que figura eles vão usar para falar com vocês. Na última reunião, estavam decidindo entre Hitler ou Bolsonaro.

– Bolsonaro?

– Pros jovens. A ideia é gerar mídia espontânea, conversão no Facebook, essas coisas de internet. Marketing é foda…

– Então, ou a gente aceita seus termos ou vocês destroem o planeta?!

– É como aquele traficante falou no seriado. Como era mesmo?! Ah, sim… — limpa a garganta e fala com a voz do Wagner Moura — plata o plumo?

– Acho que vou ficar com a plata.

– Meus parabéns, vocês foram promovidos à Liga Universal!

Assopra uma língua de sogra.

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