A mente e para (o que) quem ela serve

A proposta

O corpo, como todos sabem, é exclusivamente moderado pela mente - isso é muito óbvio. Não obstante, e o que não deveria ser tão óbvio, é a deserção da responsabilidade dos seus "proprietários". Tal retirada é um desperdício frente a rica gama de possibilidades para compreender os principais fundamentos pelos quais a ciência da mente está incumbida e, para muitos como eu — enfermos da alma — ela (fora os remédios e afins) é um dos principais recursos disponíveis para assimilar o sofrimento, a dor e seus gatilhos, inconscientes na maioria do caso. Visto que a predominância em entregar-se às facilidades da Lei do Menor Esforço e esquivar-se do ser autocrático que nos habita é a ordem vigente, analisaremos esse entrave, com a finalidade de eliminar os fatalismos de acordo com o surgimento dos mesmos.

Preparando-nos para a dissuasão

Cada indivíduo recebeu por natureza uma consciência, única e inalienável, muito embora não saibam como aproveitá-la e, por várias vezes, permanecerem na inércia pelo gosto indesejado do esforço. De uma forma ou de outra, são esses itens que compõem cada boi da manada, sobrevivendo a crédito por um punhado de sonhos perecíveis. Dessa maneira, entorpecidos pelos comandos básicos da materialidade, atendem imprudentemente às cinco coordenadas que, como todos sabem, resumem-se ao absurdo da matéria e suas míseras possibilidades.

Em meio a essa doutrina limitada, para evitar o choque imediato, preconcebeu-se, involuntariamente, a necessidade da dissuasão. Dissuadir significa "induzir", o que em outras palavras exprime o valor de: não há ninguém te obrigando a nada, mas há alguém na sua orelha sussurrando: "vai perder essa oportunidade? Faça um favor a você mesmo, você merece! Seja forte, você consegue! Pense fora da caixinha!". Talvez você, assim como eu, deve ter se perguntado: "porque não a persuasão"? Porque a persuasão nos leva ao radicalismo, à botinada na cara, à verdade nua e crua que em uma sociedade do consumo, do entretenimento e, principalmente, do esquecimento do original, mas a exaltação da cópia, é praticamente um crime.

Certo, agora já somos capazes de contextualizar a ligação entre a dor e a dissuasão no contemporâneo: consumismo, ansiedade e imediatismo. Infelizmente, gostaria de dizer o contrário ou até minimizar esse tema , mas é impossível. Consumismo é a nossa nova religião, apesar do consumo ser uma necessidade — atente-se bem a esse detalhe. A relação entre a dor e o consumo é simples. Material, de primeira instância, é com ela que que "você pode chegar lá", é o "esforço" e é justamente através dele que encontrará o seu tesouro — leia-se sucesso. Mas, há um adicional para esse caso: o imediatismo. E a busca ao seu tesouro precisa ser imediata, você precisa alcançá-lo enquanto ainda está vivo! Não existe "outro mundo" ou "um lugar o aguardando" após o êxito. É "aqui e agora", literalmente. O imediatismo acelera à medida em que não nos tornamos pessoas de sucesso, logo, é necessário adquirir rápido, enquanto ainda somos jovens, não temos uma família pra criar ou enquanto nossos pais estão vivos, etc. Assim sendo, agora todos podem (pela força do pensamento positivo) e desejam (porque, através do imediatismo, precisam). E se você não for capaz, será falho e descartável.

Descartável: agora lidamos com um outro tipo de dor, pois ela será o combustível da superação ("sugeridos", claro) para que ninguém dos que estejam à margem desista dos seus sonhos — todos materiais, por sinal. E, por incrível que pareça, não tardando, logo a frente surgirá uma procissão para que um dia um santo atenda às suas promessas (mas as de sucesso, não se esqueça) e que, por sua vez, são engendradas de forma semelhante ao velho cristianismo: na base da negociação. Ora, uma promessa é, nada mais nada menos, do que uma negociação. Você promete algo em troca de um desejo e caso for realizado, você cumpre a promessa, caso contrário, você não faz nada — foi a vontade divina. No contemporâneo, essa transação não é muito diferente: é preciso ser positivo, negociar consigo — perceba que agora a negociação é individual (esqueça Deus, agora é I against I) — e receber os benefícios da sua perseverança. Se obtiver sucesso através dessa fórmula, pronto: conseguiu tudo sozinho, já pode palestrar por aí, contar casos de sucesso, surgir em uma coluna de jornal — principalmente se vier de uma situação materialmente não favorável. Caso contrário, você é um perdedor — mas não demonstre isso, volte a tentar logo.

Porém, o que pouco se observa é como somos todos perdedores gastando nosso tempo precioso e o desgaste da nossa matéria — isso inclui a massa encefálica — para um niilismo passivo em direção ao nada, ao perecível, ao inútil. Apenas não nos demos conta, mas somos as peças fundamentais de um jogo em que apenas um —e grande — jogador ganha. A propósito, não existem condições para todos ganharem da forma como o jogo é proposto, né?

A dor e o lucro

Apresentei a origem, o individualismo, a negociação, agora podemos falar do circo, das suas atrações e do preço da entrada. No cenário do entretenimento, da dor e do consumismo, o lucro, em meias palavras, é uma das principais razões subentendidas do ser humano para a existência de toda essa complexa relação — vale a ressalva de que não enxergo o lucro como vilão. A dor não é apenas lucrativa, mas quando romantizada torna-se uma entidade a ser cultuada e trabalhada, além de ser uma parceira inseparável dos transtornos mentais. E ser lucrativa para os meios de comunicação (incluindo a internet) deve-se ao motivo da capacidade de continuar comprando os produtos das propagandas criadoras de necessidades desnecessárias, ou manter o movimento de não se encontrar consigo, até porque essa lacuna vazia aproxima o consumidor da ansiedade que movimenta a rota do consumo e, principalmente, em dar prioridade aos confortos materiais da vida. Como disse, o lucro não é o problema, a questão não é o consumo, mas sua primazia, a inversão de prioridades.

Pense no processo de negociação que citei parágrafos atrás, agora some a exploração da dor humana que citei no parágrafo anterior e verá a fundição necessária para o surgimento dos programas de auditório, livros de autoajuda, autobiografias de pessoas bem-sucedidas e telejornais que uma substancial parcela da humanidade ainda fornece audiência. São instituições ou entidades especializadas em captar a emoção alheia e internalizá-las no seu público, como se tal público fosse responsável, embora não se responsabilizassem por tal. Nessas condições, o público é temporariamente parte do outro, deixando-os sensibilizados, comovidos por algo distante. E quando menos esperam, surge a abordagem, a famosa abordagem do "você também pode": sair da pobreza e conquistar uma vaga na universidade federal, se utilizar do sofrimento de alguma amputação para superar barreiras do próprio corpo, sofrer uma depressão e dizer "nunca mais" ao invés de compartilhar o aprendizado (de que é uma doença, que incapacita, que precisa de acompanhamento médico, etc), do pedreiro que andava de bicicleta até a faculdade e tornou-se advogado, entre outros.

O estímulo é bem superficial: vamos fugir da dor, pois a dor não ajuda em nada, é pura negatividade. Vamos superá-la com amor e alegria, mesmo que não saibamos como, ou ainda pior, que não tenhamos profundidade no aprendizado. E então nos resta exaltar a alegria, a positividade sem o menor sentido, o prazer de viver e, é claro, gozar a vida. “Elimine essa dor, você consegue ser uma pessoa bem sucedida. Com a força de vontade conseguimos tudo” — uma típica frase para amaciar o desespero de tempos de extrema ansiedade e incertezas.

O consumo é um mérito, é positivo, qual mal existe em se adquirir um bem pelo fruto do nosso próprio esforço? Me perdoe, mas não há mérito. Você não vai carregar um caminhão de mudanças para o túmulo assim como não viverá comendo lixo, sem roupas, mas vestindo a camisa do voto de pobreza. Porque não vestir a camisa da consciência, da autonomia intelectual? Sabe, se pudesse te dizer pessoalmente, saberia que não faço parte desse muro, nem de esquerda ou direita, nem bem, nem mal. Na verdade eu estou perdido, na busca do meu "eu", do peito, do sangue nas veias, do risco de morrer pelas próprias mãos. É o caminho mais árduo, não existem holofotes, mas é inevitável. É o caminho dos recursos que a matéria não paga: a saúde mental — caminho esse que só é lembrado no leito de morte.

O Misantropo.

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