A Última Cachaça — Capítulo VIII

Lázaro

Meus pés me levam sem rumo, e eu já não consigo levantar bem a cabeça. A visão é torta, fazendo com que o um fosse sempre um dois. A cidade de Porangatu recebia minhas pisadas fortes, as passadas doentis de um jovem vagabundo no alto de sua ebriedade.

Todas as noites foram assim, mas, nessa, eu havia exagerado.

Me recosto num banco da pracinha, próximo ao coreto, vendo a luz dos postes zombando de mim. Não consigo conter meu ódio e taco o que restou da garrafa de Velho Barreiro na direção de uma dessas fontes de luz. Obviamente eu erro.

A esperança de ver as coisas de pé, outra vez, vai me abandonando, de mansinho. Deito no banco e começo um choro baixo. Não sei se pela família que morreu ou se pelo pesar de ter que seguir vivendo. Não sei.

E durmo.

Mas logo acordo, ou pelo menos pareceu logo na minha cabeça de bêbado. Era Laura.

— Meu Deus! Olha seu estado. Vamos, você tem que voltar?

— Porque vozze não me deija aqui?

Meu Deus, menino! Você não é isso. Vem, ainda dá tempo de te salvar.


Enquanto a pá retira a terra de cima do túmulo de Aline, memórias tristes me vêm a cabeça. No começo, não entendi o porquê. Há um minuto, eu pulava de felicidade de ter matado a charada mais ferrenha do além.

Lá no fundo, entretanto, eu sabia. Era medo.

Olho para o lado e Zé ainda dormia. Sem perigo.

A pá vai retirando a terra. De repente, colide com o caixão de madeira podre. Limpo um pouco mais o lugar, até conseguir quebrar a madeira e abrir aquele sarcófago perdido.

Lá estavam os restos mortais da mulher de Teobaldo Fogo-Vivo, mas também repousava uma caixa de metal.

Depressa, pego o objeto para mim. Sento no chão com o objeto em minhas mãos e vou abrindo-o, lentamente, como se daquilo dependesse a minha vida. E eu estava certo. Então, eu a vi.

A Cachaça Oliveira vinha numa embalagem âmbar, como as mais tradicionais cachaças fabricadas no país. Seu rótulo envelhecido mostrava um rancho paradisíaco, com montanhas e nuvens e um sol de dar inveja. No primeiro plano, um engenho feliz escondia a triste história dos Oliveira. Era o rótulo mais bonito que eu já tive em minhas mãos. A mítica cachaça era minha.

Minha. Eu deveria experimentá-la.

Sim, o que mais poderia acontecer?

Somente um golezinho. Só molhar os beiços. Só um gole e nada mais. Não iria fazer mal, não! Inclusive, até renovaria minhas energias para concluir a missão, não é?

Reluto. Algo grita em minha cabeça. Talvez a pancada mais cedo de Zé da Cana, talvez a pancada mais cedo ainda da vida. Não sei.

As mãos encontram a rolha. Hora de abrir e ir de encontro ao líquido. Fodam-se as culpas e as consequências.

— Hmmpf.

Susto. Zé da Cana emitiu algum som, mas não acordou. Me aproximo então do homem.

Ele, que havia matado mulher e irmão por vingança e se tornado o maior cachaceiro da região agora estava ali, no submundo, lutando para continuar na podridão.

"Ainda dá tempo."

A voz de Laura ecoou nos meus pensamentos.

Eu tomo dessa cachaça? Sim? Não?

Não, eu não experimentaria daquela cachaça. Hora de dar dois na pata do veado e nunca mais olhar para trás. Vazei.

Sem pensar, saí correndo em direção à saída do cemitério, levando nas mãos a última cachaça Oliveira. Porém, me detenho no portão e dou uma última olhada para trás.

Eu ainda vou me arrepender disso.

Encontro um carrinho de mão. Com dificuldade, acomodo Zé da Cana nele e ajeito a cachaça. Com mais dificuldade ainda, saio levando do cemitério não só o prêmio por toda aquela aventura da noite, mas também o meu inimigo número um. O filha-da-puta do Zé da Cana.

O céu começa a se abrilhantar, a manhã viria.


No meio do caminho, quase viro o carrinho, mas a voz saiu tão mansa que consegui controlar o susto.

— Ei, moleque, posso perguntar uma última coisa?

Não respondo de imediato.

— Qual o seu nome, hein?

— É…Lázaro.

— Hehehe! Muito cômodo, hein?

— Eu sabia que você não ia acreditar. Agora, dá pra voltar a andar, porra?

Zé levanta do carrinho de mão. Eu abraço a cachaça forte, mas Zé parecia, então, genuinamente desinteressado nela.

Prazer, rapaz. Meu nome não é Zé da Cana, é João de Deus.

Ipamerina nos esperava na porta do que era aquela versão destorcida do Bar do Seu Dionísio, fumando um cigarro de palha.

Entrego lentamente a cachaça em suas mãos. Seus olhos brilham, a morena abraça e beija o vidro.

Achei que tava mais cheia, mas vocês fizeram um trabalho danado de bom! Pronto pra voltar, menino?

Zé da Cana, ou melhor, João de Deus me estende a mão. O aperto de mão se transforma num abraço.

Vê se para de contar mentira falando que ganhou de mim na cachaça. Hehe!

Dou um sorriso.

Pode deixar, meu véio.

Então, Ipamerina coloca a mão sobre a cabeça de João de Deus, que começa a sumir no ar.

Depois, a morena dos olhos vermelhos vem em minha direção e coloca a mão também sobre mim.

— Juízo — ela disse.

— Pode deixar, dona — e penso em Laura uma última vez.

Assim, Ipamerina lança sua magia. Os pés me faltam e o ar já não era mais o mesmo. Eu voltava a viver e a sensação era a de mil facas sobre mim, mas todas me acariciavam ao invés de me ferir. A visão começa a escurecer e pude ver o sorriso da entidade se despedindo de mim. Enfim, o fim. E o começo.


Um mar me afoga, mas era apenas um balde d'água gelado.

— Ô menino, não inventa de morrer aqui não!

Eu estava recostado no balcão do bar do Seu Dionísio. Quanto tempo se passou?

— Eu consegui, Seu Didico.

— Não fala nada, desgramento, vou chamar a ambulância.

O pensamento era em Laura, mas minhas mãos agarraram o cantil metálico no meu bolso, antes da visão escurecer de vez. Um cantil precioso, que continha os últimos vestígios de uma cachaça da qual falariam ainda por muitas décadas. Muitas décadas.


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A Última Cachaça é a segunda parte da trilogia do Rei da Cana. Para ler a primeira parte, O Duelo, clique aqui.

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