O Rei da Cana

A Última Cachaça — Capítulo IV

Na Casa do Velho Teobaldo

É o seguinte, cria de galinha d’angola, Teobaldo Fogo-Vivo é sujeito carente, doido pra trocar dois dedos de prosa. A gente vai tomar umas e tentar descobrir onde esse diabo dessa cachaça afrescalhada tá. Se ele não falar, nóis derruba ele na pinga e vamo fuçar a casa do desgramado inté achar. Entendeu?

Ideia de bêbado é que nem cerveja choca. Mesmo sabendo que é ruim, as vezes a gente toma por falta de outra melhor. Pra mim, essa ideia do Zé era uma puta cerveja choca.


Ontem retornei
Na areia
Branca e ardente
Então te esperei
Ouvi os teus risos
Que eram vindos
Que uma onda
Trouxe ao meus pés

Do lado de fora, escutamos uma vitrola tocando a mais bela canção que eu podia me lembrar. Lá de dentro, uma voz grossa e trêmula acompanhava a melodia. Zé me olhou como quem zomba, mas não tardou a bater na porta.

Zé da Cana! Mas o que te traz aqui, velho vagabundo?

Meus pé! Hahahaha! Vim prosear e te apresentar um cachaceiro dos bons!

O velho Teobaldo era um homem negro e corpulento. Usava uma camisa branca muitíssimo bem engomada, o resto da roupa o seguia, faltando apenas a bíblia debaixo do braço que completasse a indumentária. Chacoalhei a mão firme daquele homem, tentando manter a seriedade.

Não se façam de desentendidos não, entrem!

A casinha no meio do nada era simples, feita de madeira, mas bastante ampla. A luz das lâmpadas incandescentes misturava-se ao marrom das paredes, trazendo ao lugar uma aura de sagrado. Sentamos numa mesa de madeira tão polida que espelhava nossas caras feias na superfície.

Coisa boa, coisa boa! Posso servir o quê pra vocês? Uma cervejinha?

Zé da Cana, torceu os lábios.

Bom, já entendi, vou pegar uma cachaça!

O velho corpulento volta com uma Anísio Santiago.

— Isso daí só tem nome, Teobaldo!

Fiquei menos surpreso com a zombaria de Zé da Cana do que com o fato de que, aqui nesse mundo distorcido, o que não faltava era pinga. E das boas. Teobaldo serviu três copos. Brindamos. O líquido desceu abraçando cada centímetro da minha garganta. Teobaldo realmente parecia feliz em receber visitas.

Então você é bom de copo, rapaz? E está fazendo o quê morto?

E ele olhou pra mim, depois olhou pro Zé da Cana, abrindo um sorriso gostoso.

Pera aí, foi ele que te derrotou, Zé? Foi um rapagote desse que te ganhou? Hehe!

Zé me deu uma olhada, bufou e virou o seu copo. Minha fama me precede.

Eu deixei.

Haha! Foi sim! Vamos beber mais então, hoje é dia de comemorar no inferno, !

Dizendo isso, Teobaldo Fogo-Vivo saiu, entrou em outro cômodo e foi buscar mais cachaça. Voltou trazendo duas em cada braço. Colocou mais copos sobre a mesa.

Ao reizinho da cachaça!

Servimos uma de cada e bebemos. E servimos mais, e brindamos e bebemos. Limpando a boca em sua camisa alvíssima, Teobaldo continua.

Então, rapaz, você que derrotou o Zé! Esse homem nem para morrer presta!

Ele me derrotou na roupa de fantasma, Teobaldo. Fosse no meu corpo de carne, osso e garganta eu não deixava isso me acontecer era nunca! — e Zé, além de beber da mesa, também deu um gole em seu cantil.

Risquei na areia
Teu lindo rosto
Sempre sorrindo
Talvez de mim

A música seguia em looping, como se o disco inteiro abrigasse somente essa canção, deixando toda a atmosfera daquele lugar ainda mais bizarra. Teobaldo era só risada. Entre um copo e outro, contou piada, causo e tudo o mais. Zé jogava com a frieza de um enxadrista. Só se permitia risos de canto, e não falava quase nada. Só ouvia.

O tempo foi passando, e as garrafas secando. Sem acreditar na ebriedade do submundo, enfiei o pé na jaca com gosto. Amarrei a cabra mesmo. A visão começou a embaralhar, e minhas risadas ficaram mais altas, a cada gole. O mesmo servia para Teobaldo. Zé da Cana, por sua vez, era ilegível. Não dava pra saber como o velho cachaceiro estava. E ele ainda bebia de seu cantil pessoal.

Dado momento, Teobaldo assenta seus olhos em mim, como se me analisasse.

— E aí, garoto, qual sua tristeza?

— Tristeza?

Como se eu houvesse dito algo de errado, Zé olha pra mim. Foi o primeiro sorriso sincero que ele deu desde que chegou na cabana.

Cachaceiro tem que ter tristeza, é o que dá embalo pro copo encostar na boca e é o que faz o líquido descer, moleque. Mas você não sabe o que é isso, não é? — disse Zé, desviando seu olhar de mim.

Eu não tenho nem pai nem mãe, Zé. Quer motivo melhor?

Teobaldo não acreditou. Gargalhou e me repreendeu.

Isso não serve, o nome disso é vida, garoto. Acontece. É complicado, mas acontece.

Bom, então eu não tenho nenhuma.

Dizendo isso, olhei para o lado, sem deixar que a psicanálise dos dois mortos-vivos continuasse. Zé bebeu mais um gole do seu cantil, serviu vários copos novamente e pediu novo brinde.

— À falta de tristeza do falso rei!

Eu não brindei. Virei meus copos rapidamente, entendendo que dali pra frente era caminho sem volta. O estômago não reclamou, mas a visão caiu mais dois graus. Zé bebeu mais um gole de seu cantil, também. Eita, cachaceiro danado de bom.

E então bebemos mais um copo, e mais um. Teobaldo contou mais causos e trouxe mais garrafas de cachaça. Bebíamos como se fosse a final e o nosso time campeão.

Passado mais algum tempo e mais algumas pingas na goela, Zé retoma o assunto.

O véi Teobaldo sim tem uma história boa de choro. Conta aí para o moleque, vai que ele aprende que essa vida não é dele!

Foi a primeira vez nessa noite que as feições de Teobaldo caíram. O olhar, antes tão focado nos convidados, de repente resolveu vagar por aí.

Acho que não, Zé…

Mais um gole, homem. E vamos celebrar nossa tristeza, que é só o que a gente tem.

E bebemos mais.

Teobaldo largou-se na cadeira. O homem corpulento mal deve ter percebido quando as palavras começaram a dançar para fora da sua boca, tão leves.

Eu conto, mas não pelo pedido seu. De vez em quando eu preciso afogar essa tristeza sem fim, que nem morrer me deixou. Mas já lhes aviso…

E tomou mais três doses, seguidas. Eu acompanhei. Três. Zé tomou só uma, mas deu dois goles no seu cantil.

— Minha história só conto com cachaça, pois a cachaça é a tristeza da minha história, e não há história mais triste que a da Cachaça Oliveira.

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A Última Cachaça é a segunda parte da trilogia do Rei da Cana. Para ler a primeira parte, O Duelo, clique aqui.

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