A Última Cachaça — Capítulo VI

Chamas

O cheiro de velas canábicas invade minhas narinas. O quarto escuro e apertado era inundado somente pela visão das luzes bruxuleantes. Contas e santos me encaravam em todas as paredes. Na minha frente, uma das velhas mais legais que eu já havia conhecido permanecia calma com seu turbante e olhos fechados, como se estivesse em transe.

— Dona Oneide? O que eu estou fazendo aqui?

— Menino, a alma passeia quando a gente não tem as rédeas dela, o sinhôzinho bem sabe. Agora, eu que lhe pergunto, recebi sua visita aqui por algum aperreio seu, não é?

— Eu…eu não lembro direito.

— Acho melhor lembrar, ocê não tem muito tempo não.

Laura dançava na sala do velho Teobaldo, mas só eu sentia aquela lembrança viva. O velho chorava e bebia, lembrando-se da desgraça em que sua família caiu após uma macumba muito bem feita para fabricarem a cachaça ideal.

E Zé da Cana?

— Acho que Zé da Cana me traiu, Dona Oneide.

— Ocê que foi besta de acreditar naquela alma penada do diabo!

Nisso, Oneide começa a passear pela sua salinha, ainda de olhos fechados.

Zé num é que nem você não, menino. Aquilo ali é bicho ruim. Eu fui besta de ajudar Seu Dionísio e você naquele duelo do cão. Eu vejo o povo que morreu e vejo também a cor da sujeira que eles deixaram pelo mundo. Sabe o que eu vi, rapaz? Que uns infelizes que nem Zé ou Teobaldo deixaram um estrago grande por conta da raiva ou da ganância. Mas tu não, menino, sua alma ainda não fede!

E lembro também de Laura despedindo-se assustada, logo antes de Zé da Cana me acertar na cabeça. Passo a mão por trás, mas não há feridas.

Dona Oneide, eu descobri o que é aquilo que a senhora viu em mim. O tal…buraco.

E olho para baixo. Nunca antes o buraco em meu peito havia sido tão visível.

— Não precisa dizer, menino. O nome desse daí é orgulho, mas a gente não deve se tratar pior do que a gente trata os outros não. Ainda dá pra sarar.

O cheiro das velas começa a ficar mais forte.

— Mas para sarar, eu tenho que encontrar ela de novo, aqui no mundo dos vivos. E eu não estou aqui, eu estou lá.

— Me confidenciaram que tem jeito de você voltar sim. Os defuntos só falam disso.

— Não mais. Zé da Cana vai roubar a chave de mim. Já deve ter roubado. Eu vou morar nesse submundo de merda pra sempre, vou vagar pelos bares que nem fez Zé da Cana antes de mim.

Dona Oneide volta a sentar na mesa. Sua feição passou de calmaria para preocupação. O cheiro de velas transformava-se num cheiro de queimado.

Num vai não, menino. Ainda há tempo. Você tem uma coisa que Zé não tem.

O cheiro de queimado vem forte. Que porra era essa?

— O quê?

— Você sabe escutar as pessoas.

Não entendi caralho nenhum.

— E agora, o que eu faço?

— Agora, menino, você volta. Rápido! As coisas estão começando a esquentar.


Acordar de fogo é uma expressão que geralmente indica que o bebum ainda não teve tempo de se recuperar da última bebedeira ao levantar. Não era esse o caso, mas casava bem. O casebre de madeira de Teobaldo Fogo-Vivo fazia jus ao nome de seu dono. O fogo começava a consumir a casa inteira por dentro. Minhas roupas já grudavam em mim de tanto suor. Hora de sair correndo dessa merda.

Aonde vozze penza que vai?

Teobaldo também estava embebido em suor. Gotas grossas pingavam de sua testa morena. Em sua mão, a perna de uma cadeira quebrada mostrava uma das pontas ardendo em fogo. O homem corpulento bradava a tocha em minha direção. Na outra mão, uma garrafa de cachaça das mais finas, da qual ele tomava uma dose e alimentava o fogo da casa, na sequência.

— Teobaldo, você tá MALUCO!?

— Você pode não morrer, mas esse fogo vai te consumir. Ah vai! Marditinho, você e aquele filha-da-puta do Zé vieram aqui pra me desgraçar! Pra roubar o segredo daquela cachaça maldita. Mas, escuta isso, voze não vai botar suas mãozinhas imundas naquela maldição. Não vai!

E a tocha passa raspando em minha direção. Respirar era quase impossível. Se eu morresse aqui, o que sobrava de mim? Eu não sei, mas não ia pagar pra ver.

Saí correndo e, quando o homem tentou me acertar com sua tocha, rolei pelo chão para me esquivar. Um pouco de brasa queimou minha camiseta, nada demais. Logo o homem me acerta com a garrafa de cachaça no peito. Me fazendo recuar alguns passos. Me atacar com cachaça, tá de brincadeira, irmãozinho?

Catei a outra perna da cadeira que Teobaldo havia quebrado e o fogo ainda não havia consumido. Fiz pose de samurai.

Pode vir, fi dum corno!

E o homem em seus cento e caralhadas de quilos urra de ódio e começa a vir em minha direção. Valei-me, nossa senhora.

Em um segundo, a coragem de cair no pau com aquele brutamontes me abandona. Olho para trás, vejo uma janela de vidro. Foi o tempo de arremessar o pedaço de madeira, estilhaçar o vidro, sair correndo e pular. Minhas canelas passaram a centímetros da espada de fogo de Teobaldo.

Caí com a cara na terra vermelha. A noite havia deitado de vez, finalmente. Me aprumei e saí correndo. Numa última olhada para trás, vi Teobaldo rindo, bebendo e praguejando. A casa toda já pegava fogo, assim como sua pele que começava a desgrudar de seus músculos. Ele xingava mas também ria. Na vitrola, a mesma música ainda tocava.

Ainda pude ouvir um trechinho dela antes de disparar na mais escura das noites, rumo ao cemitério, tentar tomar a chave que me levaria de volta ao mundo dos vivos. Aliás, ao mundo de Laura, a única que poderia remendar essa ferida no meu peito.


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A Última Cachaça é a segunda parte da trilogia do Rei da Cana. Para ler a primeira parte, O Duelo, clique aqui.

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